por Samuel Hanan*
Nesse último quarto de século, mais precisamente nos 23 anos recentes, o Brasil se tornou um país repleto de contrastes e contradições, situação que merece ser estudada a fundo pelos intelectuais e cientistas políticos.
Para entendermos como o país mergulhou nesse pesadelo, é preciso recorrer aos episódios históricos. Os governos vencedores das últimas seis campanhas eleitorais presidenciais se apresentaram como os vocacionados a cuidar e governar para os brasileiros mais necessitados. Foram feitas promessas em abundância, assegurando retirar da pobreza milhões brasileiros e, ao mesmo tempo, proporcionar um sistema de saúde amplo e eficiente, além de educação de qualidade, priorizando os professores.
Propagaram a ideia de que somente governos dos partidos do centro-esquerda, apresentados como os únicos verdadeiramente honestos e de fato preocupados com os pobres, são vocacionados a servir a população. O discurso nas cinco das últimas seis campanhas eleitorais funcionou, e então o Brasil foi governado pelo mesmo partido, o PT, por 17 anos (2003 a 2006, 2007 a 2010, 2011 a 2014 e desde 2022) sendo 11,3 anos (2003-2010 e de 2023 até hoje) por Luiz Inácio Lula da Silva, inconstestavelmente seu líder maior e novamente pré-candidato para mais quatro anos, apesar de completar 80 anos de idade no próximo mês de outubro.
Também se apresentaram como os únicos compromissados em banir os corruptos, levando-os à Justiça para pagarem por seus crimes com dezenas de ano de prisão. O mote se repetiu, assegurando que somente os governos honestos podem assegurar o desenvolvimento econômico e social, com redução da pobreza e das injustiças.
No entanto, convém destacar que a democracia plena somente pode ser alcançada com a harmonia dos três poderes – Legislativo, Executivo e Judiciário , condição indispensável para a busca de unidade nacional com plenas liberdades econômicas, políticas e de expressão, assegurando à oposição o direito à livre opinião, ao protesto e à crítica, tudo desejável e comum em qualquer nação efetivamente democrática.
Nessas campanhas também foi prometido que não seriam criados tributos nem haveria aumento dos já existentes, sob o argumento de que os recursos financeiros então existentes já seriam suficientes para a implementação de um governo comprometido em seus programas. Os sinais são de que tudo se repetirá agora na próxima campanha, possivelmente mais onerosa e com maior plasticidade face o desgaste de candidato e o passivo de não cumprimento de muitas de suas promessas.
O que temos após 2002 são dois Brasis muito diferentes. Existe o Brasil das campanhas eleitorais, retratado como maravilhoso, e o Brasil real, este vivido pelos cidadãos comuns, de carne, osso e estômago, em situação absolutamente diversa à dos donos do poder, pois se aproximam dos vassalos das antigas capitanias hereditárias dos tempos coloniais.
Esse enorme contraste merece isentos estudos socioeconômicos e comportamentais, com diagnóstico preciso. Está na hora do case Brasil.
Os dados e informações oficiais governamentais e internacionais já são suficientes para nos dar um panorama de qual o Brasil legado aos cidadãos nesse período.
Quando se fala sobre combate à corrupção, o discurso oficial não se sustenta diante dos dados da Transparência Internacional. Em 2002, no final do governo FHC, o Brasil ocupava a 45ª posição no ranking do índice de percepção da população. Em 2010, ao fim do primeiro governo Lula, o país havia caído para 69ª colocação. Quando Dilma Rousseff deixou o governo, em 2016, o Brasil já amargava a 79ª colocação e agora, 10 anos depois, sob o governo Lula, a posição é ainda mais vergonhosa: 107º lugar. Significa dizer que temos 106 paises com setor publico mais honesto que o do Brasil (Vexame!)
Segundo entidades renomadas, a corrupção no Brasil já corresponde a cerca de 2,5% a 3% do PIB nacional, ou seja, de R$ 320 bilhões a R$ 381 bilhões/ano. Estranhamente, não obstante tamanha subtração de recursos que poderiam ser destinados à educação, saúde, segurança e habitação, não há nenhum político cumprindo pena de prisão por corrupção no país. Tal situação alimenta a sensação de impunidade e o senso comum de que a corrupção é tolerada e a impunidade, garantida. O sentimento vigente é de que o crime compensa, péssimo exemplo para as futuras gerações.
A Operação Lava Jato foi uma oportunidade histórica para o país tratar a questão de maneira contundente. As investigações e posteriores processos penais levaram ao encarceramento de 285 pessoas formalmente acusadas de corrupção ativa e passiva, condenas por juiz de primeira instância e por colegiado de segunda instância. Mais de 200 acordos de colaboração premiada (delação, no caso das pessoas físicas, e leniência, no caso de pessoas jurídicas) foram assinados com aprovação do Ministério Público Federal e devidamente homologados em juízo, muitas das vezes por ministros das cortes superiores. Bilhões de reais desviados pelos corruptos e corruptores foram objeto de confissão e devolvidos aos cofres públicos. A restituição de outras dezenas de bilhões de reais foi prometida nos acordos celebrados.
No entanto, tudo mudou a partir de 2021. O STF anulou diversas condenações alegando incompetência do juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, inclusive aquelas já confirmadas anos antes por colegiados de segunda instância. A bem da verdade, as anulações ocorreram por falhas processuais e, sem análise do mérito, 61 acusados foram descondenados – nenhum inocentado -, inclusive aqueles com penas de mais de 200 anos de prisão.
Quando se fala de Índice de Desenvolvimento Humano, revela-se ainda mais o Brasil real. O IDH foi criado pela ONU (Pnud) para avaliar o programa de longo prazo em três dimensões básicas do desenvolvimento humano, indo além da simples medição econômica. Concentra-se em saúde (longevidade - expectativa de vida ao nascer), educação (conhecimento, medido pela média de anos de estudo em adultos e anos esperados para crianças), e renda (padrão de vida, medido pela renda nacional per capita). Também nesses aspectos o país vai muito mal.
Embora seja a 10ª economia mundial, o Brasil ocupa apenas a 78ª posição em renda média per capita e a 87ª colocação no ranking de IDH da ONU. Em Educação, o país está reprovado. Atualmente fica em 63º lugar em matemática e 56º em Letras e Ciências, muito atrás de nações mais pobres e desenvolvidas da América do Sul. O país ainda tem 4% que não sabem ler nem escrever e 29% da população entre 15 e 64 anos de idade estão classificados como analfabetos funcionais.
A segurança pública aparece nos primeiros lugares entre as maiores preocupações dos brasileiros em todas as pesquisas. E não sem razão. O Brasil é líder absoluto no mundo em número absoluto de homicídios - intencionais ou não -, seguido de Nigéria, México, Índia e África do Sul. Esses cinco países, somados, foram responsáveis por 40% dos homicídios cometidos no mundo todo em 2024. Em homicídios per capita, estamos na 11ª posição, com 22,38 mortes a cada grupo de 100 mil habitantes, praticamente quatro vezes mais do que a média global. Salvador (com 66,4 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes) é a capital mais violenta, seguida de Macapá (55,8/100 mil) e Manaus (55,7/100 mil). São índices asustadores, alimentados pelo narcotráfico e pelo domínio crescente de facções criminosas e milícias, cada vez mais poderosas.
Em termos de remuneração dos trabalhadores, o Brasil está igualmente reprovado. O salário-mínimo brasileiro corresponde a apenas 300 dólares, o sétimo menor valor na América do Sul. Perde para a Guiana (US$ 335), Paraguai (US$ 350), Bolívia (US$ 362), Equador (US$ 462), Chile (US$ 504), e Uruguai (US$ 867).
Dados do IBGE e do Banco Mundial mostram que a pobreza atinge 4,45% da população brasileira. Em pleno século XXI, são quase 10 milhões de pessoas vivendo em condições de extrema pobreza, com renda média inferior a R$ 209/mês, ou seja, R$ 6,97/dia, o correspondente a cerca de 13% do salário-mínimo vigente.
Mais de um quarto (27,55%) dos brasileiros – ou seja, 59 milhões de pessoas – vive na pobreza. Somados aos que estão na pobreza extrema, temos 32% da população brasileira vivendo com menos de R$ 665,00/mês, ou cerca de 40% do salário-mínimo.
Não é muito melhor a condição dos aposentados e pensionistas do INSS. Os proventos de 62,5% desses beneficiários estão limitados a um salário-mínimo. São 21 milhões de pessoas nessa condição. No setor privado, são 31 milhões de trabalhadores com carteira assinada com remuneração de até um salário-mínimo. Isto é: quase 60% da população brasileira têm, em 2026, renda mensal inferior a R$ 1.621,00. Esse valor corresponde a apenas 37% do salário-mínimo do Uruguai, a 64% do salário-mínimo do Chile, e a 90% do salário-mínimo da Bolívia.
São números oficiais a demonstrar que os governos brasileiros parecem gostar muito da pobreza, da qual se servem politicamente, e não gostar nada dos pobres, sempre sacrificados.
Com baixíssima renda mensal, os brasileiros ainda sofrem sem condições dignas de moradia. Segundo dados da PNAD Contínua 2026, do IBGE, 16,3% da população ainda vivem em habitações consideradas como favelas e desprovidas de serviços essenciais, como esgotamento e tratamento sanitário. O sonho da casa própria continua distante: 21% moram em imóveis alugados e o déficit habitacional atinge 5,97 milhões de domicílios.
O país que se orgulha de figurar entre as 10 maiores economias do mundo, porém está na rabeira nas nações mais competitivas do planeta: apenas o 62º lugar entre 67 países analisados.
A vida do brasileiro ainda é dificultada pela taxa de juros reais que chegam a 9,51% ao ano, segundo maior índice no mundo, superado apenas pela Turquia (12,34% a.a.). O aumento da carga tributária no governo atual é o maior da história do país e, apesar disso, o déficit nominal brasileiro chega a 9% do PIB. É o segundo maior déficit nominal entre todas as nações.
As contas públicas estão comprometidas. Pela primeira vez na história, em 2025 o governo pagou mais de R$ 1 trilhão apenas em juros. O déficit previdenciário da União já soma R$ 400 bilhões, o correspondente a 3% do PIB e mais de 9% de todas as receitas.
Nada disso, entretanto, aparece nos discursos oficiais. Na propaganda do governo, o Brasil é outro, próspero e repleto de benefícios à população. Um país absolutamente distinto da realidade vivida pela enorme maioria dos brasileiros, esse povo muito lembrado no período eleitoral. Um povo sempre esperançoso, mas que ainda está longe de ver a nação mais justa para todos os seus cidadãos. Isso somente será possível quando não houver mais dois Brasis – o real e o da propaganda -, mas somente um, economicamente forte, competitivo, com as contas públicas ajustadas, inflação controlada, juros baixos, serviços públicos de qualidade, mais segurança, mais renda, corrupção combatida, menos pobreza, menos discurso e mais condições dignas de vida a todos os brasileiros, independentemente do estado onde moram.
A esperança maior é que nas próximas eleições de outubro os brasileiros votem considerando a realidade dos cidadãos de carne e osso e não iludidos pela narrativa de um Brasil fantasioso, anabolizada pela sempre bem-produzida propaganda de rádio e televisão do período eleitoral.
*Samuel Hanan é engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros “Brasil, um país à deriva” e “Caminhos para um país sem rumo”. Site: https://samuelhanan.com.br

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