Uma embalagem de papelão ondulado, que utiliza o carvacrol – composto natural presente no orégano – para retardar a deterioração de morangos foi desenvolvida por pesquisadores do Brasil e da França. De liberação controlada, o composto incorporado a uma estrutura multicamada do papelão, triplicou o tempo de vida do fruto de três para nove dias sob refrigeração, apresentou ação antimicrobiana e abre caminho para a substituição de embalagens plásticas e redução do desperdício de alimentos.
O estudo envolveu cientistas da Embrapa Instrumentação, Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade Grenoble Alpes (UGA), na França.
A iniciativa, à base de material celulósico, biodegradável e reciclável, está relacionada à discussão sobre perdas e desperdício de alimentos, tema que ganha destaque no Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdício de Alimentos, instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2019, comemorado em 29 de setembro.
Mecanismo de funcionamento
À frente do estudo de um ano na Embrapa Instrumentação, o pesquisador Marcos David Ferreira explica que o desenvolvimento da tecnologia consistiu em combinar diferentes papéis de revestimento nas superfícies externas e interna da caixa, com a impregnação da camada intermediária do papelão ondulado com o carvacrol.
A tecnologia foi avaliada em morangos da cultivar San Andreas, produzidos em Bom Repouso (MG). Os frutos, no total de 120, foram acondicionados em bandejas de papelão ativo e armazenados durante nove dias, a aproximadamente 10 °C.
Desafio da pesquisa
A inovação não ocorreu apenas no uso do carvacrol, mas na forma de incorporá-lo ao papelão, no controle da velocidade com que o composto deixava a estrutura multicamada e chegava ao ambiente ao redor dos morangos.
Além de testar a atividade antifúngica em laboratório, os pesquisadores afirmam que a tecnologia foi avaliada em condições de armazenamento de frutos, combinando análises microbiológicas e físico-químicas e utilizando uma análise de agrupamento para observar, de maneira integrada, a evolução da qualidade dos morangos durante os nove dias de experimento.
Efeito antimicrobiano em morangos
Segundo Ferreira, um dos principais desafios da conservação de morangos é o crescimento de fungos, como o Rhizopus stolonifer, agente causador da podridão-mole.
Os resultados antimicrobianos dos estudos em laboratório (in vitro) mostraram que o papelão contendo carvacrol foi capaz de inibir o desenvolvimento deste fungo. Além disso, este efeito foi observado mesmo após 14 dias de armazenamento do material ao ar livre em temperatura ambiente.
De acordo com os pesquisadores, as análises confirmaram que os morangos mantidos nas embalagens ativas mantiveram melhor a vivacidade da cor vermelha, a firmeza da polpa e os parâmetros de acidez e sólidos solúveis, desacelerando o processo natural de envelhecimento do tecido do fruto.
“As melhores configurações retardam a liberação o suficiente para permanecerem eficazes durante o armazenamento, ajudando a atrasar a podridão fúngica e a preservar as características essenciais de qualidade da fruta”, diz Ramon Peres Brexó, pós-doutorando da equipe de Ferreira.
A principal conclusão do estudo é que a embalagem multicamadas com carvacrol funciona como uma embalagem ativa para morangos, sendo que a estrutura do revestimento determina a durabilidade do efeito antimicrobiano.
Alternativa para redução do desperdício
Ferreira explica que o morango está entre os frutos mais suscetíveis à deterioração após a colheita devido ao consumo in natura e à alta perecibilidade. “A elevada atividade metabólica, a sensibilidade a danos durante o transporte e, principalmente, o desenvolvimento de fungos contribuem para reduzir sua vida útil. Esse processo representa um desafio para a cadeia de produção e distribuição e pode aumentar o desperdício de alimentos”, diz o pesquisador.
O experimento prático com a embalagem de papelão, ou seja, uma prova de conceito, abre caminho para que produtores e distribuidoras de frutas e hortaliças reduzam significativamente o desperdício alimentar ao longo de toda a cadeia logística, garantindo produtos mais frescos e seguros ao consumidor final.
Nova legislação
A embalagem plástica tradicional na União Europeia passa por novas regras desde agosto deste ano, com a entrada em vigor do novo Regulamento relativo a Embalagens e Resíduos de Embalagens (PPWR, na sigla em inglês). A medida prevê a eliminação gradual das embalagens plásticas para hortifrútis, com o objetivo de reduzir a geração de resíduos.
A substituição da embalagem plástica para as de papelão surge como alternativa para alguns produtos. No Brasil, ainda não existe essa regulamentação, mas pensando em exportação, os países devem seguir as regras do importador e essa é uma tendência que deve ocorrer para outros países também.
Os resultados abrem novas perspectivas para o uso do papelão ondulado ativo na conservação de morangos após a colheita. A próxima etapa da pesquisa envolve o aprofundamento dos estudos sobre a liberação e a difusão do carvacrol no material, contribuindo para o aprimoramento da tecnologia.
A pesquisa foi apoiada pela Cellulose Valley Chair da Grenoble INP Foundation (Grenoble, França, Institut Carnot PolyNat, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
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