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quarta-feira, 12 de abril de 2017

LUTO INFANTIL: COMO FALAR DE MORTE COM AS CRIANÇAS?

Por Dr. Carlo Crivellaro, Pediatra com Título de Especialista em Pediatria
pela Sociedade Brasileira de Pediatria; Membro da Sociedade Brasileira de
Pediatria; e Membro da Highway to Health International Healthcare Community
Com certeza, esse é um tema muito delicado e difícil de ser falado, em
qualquer época da nossa vida, e com qualquer pessoa.

Se é difícil para nós, adultos, imagine para as crianças. Como toda
nova experiência, pode ser bastante confuso e assustador para as
crianças, ainda mais em caso de morte por acidente. Quando acontece, seja
ela com o bichinho de estimação ou com um ente querido, as crianças
precisam de todo nosso apoio e, principalmente, de nossa sinceridade, para
que haja confiança.

Antes de começar a explicar, temos que ter claro em nossa mente o que é a
morte para nós mesmos, e pensar em que realmente acreditamos, porque só
assim poderemos responder aos questionamentos delas, que vão ser muitos.
Se quiser, vale explicar também que nem todos pensam exatamente como o
papai e a mamãe, e dar versões de outras religiões.

Devemos entender também que o luto é um processo, e não um evento. Isso
quer dizer que demanda tempo, e cada criança precisará de um tempo
diferente para superar sua perda. Pressionar a criança a voltar a ter
“vida normal”, sem dar o tempo necessário, implicará em outros
problemas ou reações negativas.

Muitos pais têm dúvida de quando começar a falar sobre o assunto ou
então preferem nem falar. Deixar de falar não é a melhor solução, pois
a morte é algo que faz parte da vida de todos nós. Ela está nas plantas,
nos bichinhos, nos amigos e familiares. A melhor época para falar sobre o
assunto é quando a situação acontecer, e essa situação pode ser a
morte de alguém querido ou o questionamento da criança sobre o porquê a
florzinha do vaso morreu. A criança não irá se beneficiar de “não
tocar no assunto” ou “tirar isso da cabeça”. Nunca fuja do assunto
quando a criança quiser conversar sobre o tema.

Entre 5 a 7 anos, a criança começa a entender melhor como relacionar sua
vida com o mundo. Então, automaticamente, ela conseguirá relacionar a
morte com algo que ela perdeu, como um brinquedo, por exemplo.

A morte faz parte do ciclo da vida. Uma ótima maneira de preparar seu
filho de maneira simples é ensiná-lo desde pequeno com exemplos
práticos. Plante uma semente e vá mostrando como ela nasce, cresce e
morre. Lembra daquele feijãozinho plantado no algodão que todos nós
fizemos na escola? Pode ser um ótimo aliado neste momento. O mais
importante desta experiência é mostrar que esse processo é natural e que
independe de ele ter cuidado direitinho da planta.

Há três itens em relação à morte que a criança precisa entender:

- Tudo que é vivo vai morrer um dia;
- Quando morre não volta mais;
- Depois que morre, o morto não sente dor, não corre, não sente medo,
não dorme, não pensa, não age mais.

Crianças até 3 anos não conseguem perceber claramente isso, mas entendem
que não brincarão mais com a tia, ou que o avô não a buscará mais na
escola. As mais velhas percebem que a morte é algo natural, mas
precisarão de explicações concretas para entendê-la. Só a partir de 12
anos é que a criança consegue entender completamente todo o processo.

Nunca associe morte com sono! Para contar à criança que alguém morreu, o
melhor é não mentir e nem contar historinhas do tipo: “ele dormiu para
sempre”, “descansou”, ou “fez uma longa viagem”. As crianças
entendem as frases exatamente como são ditas, e isso pode causar confusão
na cabecinha delas. Podem achar que a vovó que morreu está apenas
dormindo e vai acordar a qualquer momento e chegar em casa, ou que todo
mundo que viaja nunca mais volta, ou quando o papai chegar e disser que
está cansado, ela vai achar que ele vai dormir e morrer. Aliás, a
própria criança pode começar a ter medo de dormir e não acordar mais.
Se disser que “fulano virou uma estrelinha”, a criança vai acreditar
e, quando olhar para o céu, irá achar que todas as estrelas são pessoas
mortas.

Se um ente querido estiver muito doente a criança deve saber o que está
acontecendo. Por mais nova que ela seja, irá perceber o clima da casa.
Explique que a pessoa está doente e que é grave. Se caso a pessoa morrer,
nunca chegue para a criança contando o que aconteceu de repente. Comece a
conversa relembrando do ciclo da vida da plantinha, daquele feijãozinho
que vocês plantaram. Encare como uma discussão em aberto, e não como um
discurso! Dê espaço para a criança tirar as suas dúvidas. Comece com
fatos básicos, descubra o que a criança sabe e pensa, para decidir o
quanto mais de informação ela tolera. Nem todas as crianças suportam
muitos detalhes. Mais uma vez: a criança precisa de apoio e sinceridade.

Nunca esconda seus sentimentos. Não queira passar a imagem de que está
tudo bem. Ao contrário, exponha suas emoções, pode chorar e dizer que
será difícil para todos da família. Isso fará a criança perceber que o
que ela está sentindo é normal. Demonstre que, como a criança, você
também sente saudades e está sofrendo, e deixe que ela fale sobre os seus
sentimentos. Garanta que ela não está sozinha, e sempre haverá alguém
para cuidar dela, principalmente se a perda for de um dos pais. E tenha
paciência, pois é possível que ela pergunte as mesmas coisas várias
vezes.

É natural que a criança apresente mudanças de comportamento após a
notícia da morte de alguém com quem convive. Além do choro e da raiva,
pode começar a ir mal na escola, ficar hiperativo ou fazer xixi na cama.
Considere ajuda da escola e até de um psicólogo. É importante que a
criança sinta que tem apoio e atenção também dos colegas e professores.

Outra dúvida comum é se a criança deve ir a velórios ou enterros. Não
se deve forçar, mas a criança pode se beneficiar de participar junto com
os adultos. Os rituais servem para que todos vivenciem melhor a despedida,
inclusive os pequenos. Os especialistas concordam que velórios e enterros
não traumatizam as crianças. Explique muito bem antes como é o velório
ou o enterro, e pergunte se ela quer ir. A criança precisa saber antes que
será triste, e que muitas pessoas estarão chorando. Não decida pela
criança que ela deve ficar de fora, mas também não a obrigue a ir se ela
não quiser, e não deixe que se sinta culpada se não for.

O mais importante de tudo é sempre agir com honestidade, com a verdade,
para que seu filho possa sempre confiar em você. Se não souber responder
a alguma pergunta, não tem nenhum problema em dizer “não sei”. Buscar
as respostas junto com seu filho poderá uni-los ainda mais. Quando
procurar ajuda profissional? Em casos de raiva ou hostilidade excessivas,
ou quando a criança não expressa nenhum luto, ou em casos de depressão
ou ansiedade que interferem nas atividades diárias, durando semanas ou
meses.

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