Resíduos de antidepressivo na água

 


            *José Renato Nalini

            A água que bebemos, além de coliformes fecais e cocaína, expelida com a urina de quem se utiliza da droga, tem muitos resíduos fármacos. Um deles é fluoxetina, cujas moléculas causam toxicidade aos peixes e aos organismos que vivem nas águas.

            Pesquisas comprovaram que, mesmo em baixas concentrações, a fluoxetina causa alterações comportamentais, além de feitos fisiológicos e reprodutivos em peixes e invertebrados aquáticos. A boa notícia é que estudiosos do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares – IPEN, da USP, testaram com sucesso o uso da técnica de irradiação por feixe de elétrons para eliminar os resíduos do antidepressivo no tratamento da água. O método gera compostos que atacam e degradam as moléculas do medicamento, eliminam a toxicidade e reduzem a contaminação dos organismos que vivem nas águas.

            É muito importante que a ciência descubra fórmulas de descontaminar a água, pois ela já está comprometida com tantos outros resíduos fármacos e também com microplástico. A população usa cada vez mais substâncias que são expelidas nas fezes e urina e o elevado consumo, persistência no ambiente e deficiência no tratamento convencional, faz com que a água lembre o que deveria ser – algo incolor, inodoro e insípido. Pouca gente se dá conta disso.

            Conforme o engenheiro Flávio Kiyoshi Tominaga, as técnicas convencionais de tratamento de esgoto são inadequadas para remover completamente os fármacos. Por isso é urgente recorrer a outros recursos tecnológicos, tais como a radiação ionizante, fotodegradação e outros processos oxidativos.

            É urgente que a ciência continue a avançar e a oferecer alternativas, porque o adensamento das cidades, o anacronismo dos tratamentos tradicionais, a deficiência no saneamento básico e a tragédia do esgoto não tratado são fatores que fragilizam a saúde da população.

            A cidadania também precisa estar atenta e cobrar do Poder Público maior fiscalização das concessionárias de serviço de fornecimento de água e tratamento de esgoto, para que não se regrida num setor em que o Brasil já está atrás de inúmeras outras nações. Chega de tomar água com coliformes fecais, cocaína e a profusão de remédios que os ansiosos, os deprimidos, os desalentados e outros enfermos consomem de forma intensa.

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

 

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