Nomes celebrados da cena teatral, Dib Carneiro Neto e Kil Abreu farão as críticas do Festival de Jales

O espectador de uma peça de teatro pode até não imaginar, mas depende muito mais do trabalho de um crítico do que imagina. Afinal, é ele quem auxiliará na mediação entre a opinião pessoal e o diálogo que a obra estabelece com o entorno. Em última instância, é esse crítico quem vai se aliar ao espetáculo na tarefa de fazer o público entender o mundo.

 

Sorte do espectador de Jales e região: em uma de suas inovações, o Festival Nacional de Teatro de Jales trará a crítica teatral para a sua 12ª edição, que será realizada entre os dias 16 e 24 de outubro em diversas localidades de Jales, com ingressos gratuitos.

 

Um dos críticos será Dib Carneiro Neto, que iniciou sua trajetória na crítica de teatro infantil e foi editor-chefe do Caderno 2, de O Estado de S. Paulo. Também criou o site e canal Pecinha É a Vovozinha. E, como dramaturgo, recebeu o Prêmio Shell por Salmo 91 e o Prêmio Jabuti pelo livro Imaginai! O Teatro de Gabriel Villela.

 

Já o outro será Kil Abreu, formado em Artes Cênicas pela USP. Foi crítico da Folha de S.Paulo, diretor do Departamento de Teatros da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e coordenador da Escola Livre de Teatro de Santo André. Participou, ainda, da curadoria de importantes festivais brasileiros e é editor do site Cena Aberta, dedicado ao teatro, à crítica e às políticas das artes.

 

Dib Carneiro Neto e Kil Abreu, aliás, participarão do debate Painel Crítico: Quando um Olhar de Fora Mergulha pra Dentro da Obra, neste domingo (18/10), às 10 horas, no Cine Jales. A conversa faz parte de outra novidade do festival: as Ações Formativas, que reunirão sete mesas durante o evento (veja programação abaixo).

 

Mediação com o mundo

Diferentemente do que o senso comum costuma apontar, a crítica vai muito além da emissão de uma opinião sobre uma obra. Como explica Dib Carneiro Neto, o trabalho tem uma função crucial: desvendar o fazer teatral para auxiliar o público a entender o mundo.

 

“A importância da crítica é aliar-se ao espetáculo na tarefa de fazer o público entender o mundo, a partir do tema específico abordado na obra”, analisa Dib. “O fazer teatral é desvendado e, com isso, o sentido pretendido pelo espetáculo pode levar a reflexões.  O poder de impacto será tanto maior quanto mais o texto crítico conseguir surpreender o leitor, inundando-o de possibilidades de compreensão e pontos de vista.”

 

Isso seria possível, segundo Kil Abreu, porque o crítico atua como um mediador: analisa a estética da peça de teatro, da encenação, para fazer a ligação entre a plateia e os artistas. “Ele faz uma triangulação: levanta o debate entre plateia e artistas”, aponta Kil.

 

O exemplo de um dos maiores críticos do país – de literatura, não de teatro – é mencionado por Kil Abreu para explicar como a mediação é possível. “Antonio Candido faz a diferenciação da crítica profissional daquela desinteressada – afinal, somos todos críticos diante de uma obra. E a diferença, segundo ele, é que o crítico espontâneo liga imediatamente suas impressões a um juízo de valor, ou seja, eu tenho prazer ou desprazer, acho que o espetáculo é bom ou ruim, etc. Isso todos nós fazemos. É uma crítica de gosto. Já o crítico profissional precisa ir além do gosto.”

 

É nesse ponto que a crítica ganha uma dimensão maior e se torna uma possibilidade de diálogo. “Para Antonio Candido, o crítico profissional é aquele que coloca a impressão inicial em uma espécie de moinho, de moenda, para fazer o trabalho intelectual antes de chegar ao juízo de valor. Ou seja, tem uma etapa intermediária que é o próprio trabalho crítico”, aponta Kil. “É estabelecer uma relação entre a obra e seu entorno, os temas sociais que ela debate, como ela se relaciona com o que está fora da obra, como ela se relaciona com outros trabalhos do grupo ou do artista, os contrastes entre uma coisa e outra, entre as disciplinas que ela dialoga, como história, sociologia, estética, filosofia.”

 

Ao se colocar como responsável por fazer o moinho rodar, entretanto, o crítico deslegitima o próprio eu. E desmistifica, também, a ideia comum de que está apenas emitindo uma opinião pessoal. “Se ele é um mediador, ele não está trabalhando consigo próprio, mas com instâncias diferentes, que é a artística e a recepção, que é o público. Então, ele tem de saber que a importância do seu trabalho está fora dele. Isso é importante porque sai daquela crença popular de que o trabalho do crítico é um juízo pessoal, subjetivo”, detalha Kil, para depois complementar.

 

“Sim, claro, ele está lá, o crítico tem suas preferências, sua visão de mundo. Mas não é só isso, porque ele é um mediador. Do contrário é opinião, e não crítica. É uma espécie de estrangeiro, que está sempre do lado de fora, como um mediador. Até no sentido brechtiano: precisa de certa distância para poder criticar. É uma mediação distanciada da obra que pode ajudar o espectador e o próprio artista a uma avaliação a respeito daquilo que está sendo colocado em vista, que é o próprio teatro”, completa Kil Abreu.

 

Construção da crítica

Todo esse trabalho de mediação e de auxílio ao espectador/artista, é claro, não nasce por acaso. Dib Carneiro Neto explica que a construção da crítica é uma tarefa árdua, fruto da experiência e do extenso trabalho de pesquisa. “A prática da profissão nos instrumentaliza de parâmetros comparativos. De tanto ver espetáculos ao longo de décadas e praticar a escrita sobre eles, um profissional se solidifica no ofício, ganha respeito, cria seus pensamentos e se sente seguro para opinar sobre o que viu”.

 

A experiência, entretanto, segundo ele, não pode dar lugar a um profissional ensimesmado, indisposto para o novo e o aprendizado. “Muito importante é, antes de deitar palavras levianas a respeito de um espetáculo, procurar ler sobre a proposta do grupo, as intenções do diretor, as pesquisas que foram feitas, as linguagens cênicas utilizadas, as escolhas de abordagem do tema da peça”, aponta Dib. “Um crítico que não aprende com o que vê, mesmo que tenha décadas nessa profissão, é um crítico solidificado, engessado, sem abertura para o novo.”

 

Da mesma maneira que não pode emparedar o olhar, um crítico não deve engessar a própria análise. Não existe receita pronta para a construção de uma crítica. Cada espetáculo exige um caminho diferente de texto, uma demanda específica de abordagem, segundo Dib Carneiro Neto.

 

“A crítica que, por exemplo, segue um roteiro de análise de quesitos (direção, cenografia, figurinos, iluminação, interpretações, etc.) acaba adquirindo um pragmatismo que muitas vezes não dá conta de propor reflexões nem se aprofunda na análise do que se passou no palco. Qual o pensamento que está sendo articulado no espetáculo? Se o crítico tenta responder isso, ele contribui mais do que se vai pela linha do ponto a ponto pragmático”, finaliza Dib.

 

Confira a programação das Ações Formativas e dos Espetáculos de Rua:

 

DIA 17/10

 

AÇÃO FORMATIVA: SESC EM PERCURSO – POLÍTICAS PÚBLICAS E MECANISMOS DE FOMENTO À CULTURA

Ivan Montanari – São Paulo/SP

09:00 horas – Sala de Reuniões – Teatro Municipal Ismael Tonholi

 

DUO PARA DOIS PERDIDOS

Cia Dual - São Paulo/SP

11:00 horas - Praça João Mariano de Freitas

 

 

DIA 18/10

 

PAINEL CRÍTICO – QUANDO UM OLHAR DE FORA MERGULHA PRA DENTRO DA OBRA
Dib Carneiro Neto e Kil Abreu

10:00 horas – Cine Jales

 

NAQUELE BAIRRO ENCANTADO - ENSAIOS PARA UMA SERENATA

Teatro Público - Belo Horizonte/MG

18:00 horas – Concentração e saída na E.M. Iracema Pinheiro Candêo (Prof. Lola)

 

 

DIA 19/10

 

OFICINA: IMAGENS PROIBIDAS: A HISTÓRIA DA CENSURA NO CINEMA
Luís Carlos Pavan
14:00 horas - Sala de Reuniões – Teatro Municipal Ismael Tonholi

 

CARAVANA DO CIRCO SEM FUTURO

Grupo Nômade - São José dos Campos/SP

19:30 horas – Faculdade de Tecnologia Prof. José Camargo - FATEC Jales

 

 

20/10

 

OFICINA: PRODUÇÃO ABSURDA: PRÁTICAS DE PRODUÇÃO E GESTÃO EM GRUPOS DE TEATRO

Grupo Pavilhão da Magnólia – Fortaleza/CE
14:00 horas - Sala de Reuniões – Teatro Municipal Ismael Tonholi

21/10

 

GENTE

Cênica – São José do Rio Preto/SP

21:00 horas – Praça Euphly Jalles

 

 

22/10

 

CURADORIA: CURAR O OLHAR E PERCEBER OS DESEJOS
Carla Marco, Jorge Vermelho e Murilo Jesus

14:00 horas – Cine Jales

 

VIKINGS E O REINO SAQUEADO

Cia Os Palhaços de Rua – Londrina/PR

21:00 horas – Praça Pedro Temponi

 

 

23/10

 

OFICINA: TEATRO DE RUA
Impacto Agasias Grupo de Teatro

14:00 horas – New Corpus Escola de Dança

 

NO REINO DE CALAMAÇO

Às avessas – Belo Horizonte/MG

21:00 horas – Praça Euphly Jalles

 

24/10

 

FUBÁ – UMA RECEITA PARA O TEMPO

Impacto Agazias Grupo de Teatro – São Paulo/SP

10:00 horas – Praça João Mariano de Freitas

 

OFICINA: TEMPO, PRESENÇA E IMAGINAÇÃO: EXPERIÊNCIAS ARTÍSTICAS A PARTIR DE SALVADOR DALÍ
Giovana Alves

10:00 horas – New Corpus Escola de Dança

 

Cena Primeiro Sinal

A GUERRA MAIS OU MENOS SANTA

Escola Livre de Teatro – Jales/SP

18:00 horas – Praça João Mariano de Freitas

 

por Daniel zilio

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