Prof. Ma. Lieny Munhoz Martins
Coordenadora do curso de Psicologia do UNIJALES
Setembro é marcado pelo amarelo, mas, principalmente, pela necessidade de olhar com mais atenção para uma questão que ultrapassa qualquer campanha: a saúde mental e a prevenção do suicídio.
Os números ajudam a dimensionar a importância do tema. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 727 mil pessoas morreram por suicídio em 2021, o que corresponde a mais de 720 mil mortes por ano em todo o mundo. A estatística, frequentemente divulgada como “uma pessoa a cada 40 segundos”, foi calculada pela OMS a partir de estimativas anteriores. Considerando os dados mais recentes, o intervalo corresponde a aproximadamente uma morte a cada 43 segundos.
Mais do que números, cada uma dessas mortes representa uma história interrompida e repercussões que alcançam familiares, amigos, colegas de trabalho, instituições e comunidades inteiras.
Jovens estão entre os grupos que merecem atenção
Entre os dados mais preocupantes está a situação da população jovem. De acordo com a OMS, o suicídio foi a terceira principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos no mundo, considerando os dados de 2021. Entre mulheres jovens, ocupou a segunda posição.
No Brasil, os dados também revelam uma diferença importante entre homens e mulheres. As estatísticas do Ministério da Saúde mostram taxas de mortalidade por suicídio significativamente maiores entre homens. Em 2024, por exemplo, entre pessoas de 20 a 24 anos, a taxa de mortalidade por suicídio foi de 16,3 óbitos por 100 mil habitantes entre homens, contra 4,3 entre mulheres. Na faixa de 25 a 29 anos, foram 17,9 entre homens e 4,6 entre mulheres. A diferença permanece nas demais faixas etárias e também se mostra expressiva entre pessoas idosas.
Esses dados não significam que o sofrimento psicológico esteja restrito a determinados grupos. Ao contrário, reforçam a necessidade de ampliar o olhar para diferentes populações e compreender que a prevenção precisa considerar as particularidades de cada pessoa e de cada contexto.
Falar é importante. Mas buscar cuidado especializado é essencial.
Quando alguém está passando por um momento difícil, uma das atitudes mais importantes que podemos ter é nos aproximarmos.
Perguntar “você está bem?”, ouvir sem julgamentos, oferecer companhia e demonstrar disponibilidade podem fazer diferença. Criar espaços em que as pessoas possam falar sobre aquilo que sentem é fundamental para combater o silêncio e o estigma que ainda cercam a saúde mental.
Mas existe algo que precisa ser igualmente compreendido: falar sobre o que sentimos é importante, mas nem sempre é suficiente.
Uma conversa com um amigo, familiar ou pessoa de confiança pode oferecer acolhimento e apoio. Entretanto, quando o sofrimento é intenso, persistente ou começa a interferir no sono, na alimentação, no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos, no autocuidado ou na capacidade de realizar atividades cotidianas, é importante buscar ajuda profissional.
Assim como procuramos atendimento médico diante de sintomas físicos persistentes, o sofrimento psicológico também merece avaliação e cuidado especializado.
Psicólogos, psiquiatras e outros profissionais da área da saúde possuem formação específica para avaliar diferentes situações e contribuir para a construção de estratégias de cuidado e tratamento adequadas às necessidades de cada pessoa.
A OMS destaca que existem intervenções eficazes para a prevenção do suicídio e que o fortalecimento dos serviços de saúde mental e o acesso oportuno ao cuidado são componentes importantes das estratégias de prevenção. Ao mesmo tempo, o estigma relacionado aos transtornos mentais e ao suicídio pode dificultar que pessoas em sofrimento procurem ajuda.
Pedir ajuda não é sinal de fraqueza
Ainda é comum ouvir frases como “isso é falta de força de vontade”, “é só pensar positivo” ou “converse com alguém que passa”.
Embora muitas vezes sejam ditas com a intenção de ajudar, essas respostas podem acabar reduzindo a complexidade do sofrimento psicológico.
Nem todo sofrimento pode ser resolvido com força de vontade. Nem toda dor desaparece com uma conversa. E procurar atendimento psicológico ou psiquiátrico não significa que uma pessoa seja fraca, incapaz ou que tenha chegado ao seu limite.
Significa reconhecer que algo não está bem e decidir cuidar disso.
Buscar ajuda antes que o sofrimento se agrave também é uma forma de prevenção.
A prevenção começa muito antes da crise
Falar sobre setembro Amarelo não deve significar esperar que alguém apresente uma situação extrema para oferecer cuidado.
A prevenção também está nos pequenos movimentos cotidianos: prestar atenção às mudanças de comportamento, manter vínculos, perguntar genuinamente como alguém está, acolher sem julgamentos, combater o preconceito e, principalmente, reconhecer quando é necessário procurar ajuda especializada.
A informação também tem um papel fundamental nesse processo. Quanto mais a sociedade compreende a saúde mental como parte integrante da saúde, maior é a possibilidade de diminuir o estigma e facilitar o acesso ao cuidado.
É importante lembrar, ainda, que falar sobre suicídio exige responsabilidade. A abordagem do tema deve priorizar prevenção, informação e caminhos de ajuda, evitando descrições de métodos, exposição de casos de maneira sensacionalista ou qualquer conteúdo que possa aumentar o sofrimento de pessoas vulneráveis.

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