Santa Casa de Barretos chama atenção para a doação de órgãos no “Setembro Verde”

 

Técnica de enfermagem da instituição recebeu uma córnea em 2020 mostra como a decisão de doar pode mudar vidas

Jussara Salles trabalha há seis anos como técnica de enfermagem na Santa Casa de Barretos. Todos os dias, convive com pacientes, profissionais de saúde e histórias que passam pelo hospital. Mas há uma experiência que ela conhece também do outro lado: Jussara é receptora de uma córnea e voltou a enxergar graças à decisão de uma família que ela nunca conheceu.


A história aconteceu em 2020, em plena pandemia, em setembro daquele ano uma infecção atingiu olho esquerdo de Jussara. Depois de vários exames, os médicos identificaram um fungo, sem que fosse possível determinar como ocorreu a contaminação. “Quando fui diagnosticada, já tinha perdido a visão do olho esquerdo. Sentia tanta dor que nem conseguia enxergar direito com o outro olho”, conta.


Atendida em Ribeirão Preto, recebeu a notícia de que sua córnea não poderia ser recuperada e foi incluída na fila emergencial para transplante. Em pouco tempo surgiu um doador compatível e o transplante foi realizado em dezembro daquele ano.


“Sou muito grata à família que decidiu doar. Não conheço e nunca conheci essa família, mas sempre incentivo a doação, porque minha visão foi salva por uma doação de córnea”, diz Jussara.


É com histórias como a dela que a Santa Casa de Barretos chama a atenção, durante o “Setembro Verde”, mês de conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos, para uma decisão que precisa começar antes de qualquer situação de emergência: conversar com a família e deixar claro o desejo de ser doador.


No Brasil, a doação de órgãos e tecidos após a morte depende da autorização da família. Por isso, mesmo quando uma pessoa deseja ser doadora, é fundamental que seus familiares conheçam essa vontade.


Na Santa Casa, equipe acompanha o processo desde a identificação do potencial doador

Na Santa Casa de Barretos, a Equipe Hospitalar de Doação para Transplantes (e-DOT), antiga Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT), completa dez anos de atuação. A equipe identifica potenciais doadores, acompanha o processo de diagnóstico de morte encefálica e, principalmente, acolhe e orienta os familiares.


O médico intensivista Mário Roberto Rezende Guimarães Júnior, coordenador das UTIs Adulto e coordenador/presidente da e-DOT, explica que esse trabalho envolve profissionais de diferentes áreas, preparados também para lidar com um momento de dor para a família. “A e-DOT está presente desde a identificação do paciente até a confirmação do diagnóstico de morte encefálica e, principalmente, no acolhimento da família. Assistência social, psicologia e enfermagem participam desse processo, a equipe recebe treinamento constantemente para estar preparada para acolher esse familiar e comunicar notícias que são muito difíceis”, explica.


Depois da confirmação da morte encefálica, a possibilidade da doação é apresentada à família. A decisão é dela. “Quem define é sempre a família. Por isso, se a pessoa tem vontade de doar, é importante comunicar isso aos familiares em vida. Naquele momento de dor, quando a família sabe que aquele era o desejo do ente querido, essa informação pode ajudar na decisão pela doação”, afirma o médico.


O Sistema Nacional de Transplantes, do Ministério da Saúde, dtermina que os órgãos doados sejam destinados a pessoas inscritas na lista de espera, seguindo critérios técnicos como compatibilidade, gravidade e tempo de espera. Mais de 90% dos transplantes realizados no país são feitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).


Informação e acolhimento também fazem parte da doação

Enfermeira da e-DOT e supervisora de enfermagem da Santa Casa de Barretos, Tainara Barbosa Rodrigues de Souza acompanha de perto as famílias durante o processo. Segundo ela, oferecer informação e respeitar a maneira como cada pessoa enfrenta a perda fazem parte do protocolo adotado pela instituição.


“Tem família que gosta de estar presente fisicamente, ao lado do paciente que evolui para possível morte encefálica. A gente age de maneira transparente, permitindo esse acesso dentro dos protocolos necessários”, explica.


Tainara lembra de uma situação em que a esposa de um paciente pediu para acompanhar o exame realizado para a confirmação da morte encefálica. “Foi a forma que ela encontrou de lidar com aquele luto. Depois de acompanhar de perto todo o processo, ela acabou concordando com a doação de órgãos. Cada família reage de uma forma, mas o que temos percebido é que, quanto mais informações sobre todas as etapas são oferecidas, maiores são as possibilidades de doação”, relata.


A equipe também discute continuamente as abordagens utilizadas nesse momento. “Estamos constantemente conversando para avaliar a melhor maneira de falar com as pessoas em uma situação de dor e luto. Campanhas como o ‘Setembro Verde’ ajudam muito a esclarecer a importância da doação”, completa.


A Santa Casa de Barretos possui atendimento em Neurologia e Neurocirurgia e recebe pacientes neurológicos, contexto em que podem ser identificados potenciais doadores e iniciado, quando indicado, o protocolo para diagnóstico de morte encefálica. Após a autorização familiar e a oferta dos órgãos à Central de Transplantes, equipes especializadas responsáveis pela captação são acionadas.


Para o Dr. Mário, o resultado de uma doação pode aparecer de diferentes maneiras na vida de quem espera. “Pode ser uma pessoa que volta a enxergar, alguém que deixa de precisar de hemodiálise ou até uma vida salva. Um paciente que aguardava um coração, por exemplo, pode passar meses internado e, depois do transplante, voltar para casa. Para a família que autorizou a doação, saber que alguém foi ajudado também pode se tornar algo bom em meio a tudo de ruim que aconteceu”, afirma.


Jussara é uma dessas pessoas. Seis anos depois da infecção e do transplante que lhe devolveu a visão, ela continua trabalhando na Santa Casa e carregando gratidão. “Minha visão foi salva por uma doação de córnea, sou muito grata e rezo sempre, mesmo sem saber quem doou, para a família do doador”.


Fotos: Vitória Navarro


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