Risco de "Super El Niño" reacende alerta para a safra 2026/27 no Brasil

 

Fenômeno climático de 2024 provocou enchentes históricas no Rio Grande do Sul

A Noaa (agência oceânica dos Estados Unidos) elevou para 97% a probabilidade de o El Niño atingir um patamar classificado como "muito forte" já no início da primavera no Hemisfério Sul, entre o fim de setembro e o início de outubro. Segundo o órgão, há ainda 75% de chance de que o fenômeno, entre outubro e dezembro, supere em intensidade todos os episódios registrados desde 1950, um cenário que já vem sendo chamado de "Super El Niño". Atualmente, a temperatura da região do Pacífico usada como referência está 1,8°C acima da média histórica, no patamar "forte", e projeções do Centro Europeu de Previsão Meteorológica (ECMWF) apontam para um aquecimento que pode chegar a 3,2°C.

A notícia reacende lembranças recentes e desconfortáveis para o produtor rural brasileiro. Em 2024, o último grande evento de El Niño provocou enchentes históricas no Rio Grande do Sul e, segundo o IBGE, o valor da produção agrícola nacional caiu 3,9% naquele ano para R$ 783,2 bilhões, enquanto o volume colhido de cereais, leguminosas e oleaginosas recuou 7,5%. Um novo episódio, ainda mais intenso, pode repetir, e agravar, esse cenário na segunda safra de 2026.

Para Douglas Vaz Tostes, técnico nacional da GIROAgro, o impacto do fenômeno vai além do que costuma dominar o noticiário. "Quando falamos em um possível Super El Niño, pensamos logo em um aumento no ciclo de chuvas no Sul, estiagens em partes do Norte e Nordeste, e uma maior irregularidade climática no Centro-Oeste e no Sudeste brasileiros. Mas existe um impacto que, muitas vezes, acaba passando despercebido, que são os efeitos dessas condições sobre a nutrição das plantas. Afinal, tanto o excesso quanto a falta de água comprometem a disponibilidade, a absorção e a assimilação dos nutrientes pelas culturas", explica.

Segundo o especialista, o desafio se divide em duas frentes opostas. Nas regiões com excesso de chuva, aumenta a lixiviação, a perda de nutrientes do solo arrastados pela água. Já nas áreas atingidas por estiagem, a absorção de nutrientes fica limitada pela menor disponibilidade hídrica e pelo desenvolvimento reduzido do sistema radicular das culturas. "Por isso a nutrição deixa de ser apenas fornecimento de nutrientes, nesse momento, e passa a ser uma ferramenta para aumentar a resiliência da lavoura", afirma Vaz Tostes.

Ele reforça que, embora o clima não possa ser controlado, o manejo nutricional pode preparar as plantas para absorver melhor o impacto das oscilações climáticas. "Tecnologias que favoreçam o desenvolvimento radicular, a eficiência fotossintética e o equilíbrio nutricional das plantas ganham uma grande importância. Quem entende essa relação entre o clima, o solo e a nutrição estará mais preparado para proteger o potencial produtivo de suas lavouras."

O El Niño é um fenômeno natural recorrente, com periodicidade média de dois a sete anos, causado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico equatorial; o oposto da La Niña. O que preocupa autoridades e especialistas desta vez é a escala: a Noaa registrou, no início do mês, um aumento de 2°C numa área oceânica equivalente a quatro vezes o território brasileiro, volume de energia suficiente para alterar padrões de circulação atmosférica nas Américas e em outros continentes.

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