Conjunção de forças

 



            *José Renato Nalini

            Os textos de Ruy Castro são imperdíveis. Sagaz, irônico, imaginativo e contundente, ele propõe momentos deliciosos para quem o lê na coluna da FSP. Dia 20 de fevereiro, ele escreveu “Tragédia anunciada” e narrou episódio que poucos conhecem. Em 1965, alpinistas americanos escalaram o Himalaia e uma nevasca impediu que eles ali instalassem um gerador de combustível radioativo. Quando voltaram para terminar a manobra, o equipamento havia adentrado na neve e se perdera.

            O risco agora é que o derretimento das geleiras faça com que o plutônio do gerador seja despejado nas nascentes do Ganges. Desastre total. Por coincidência, terminei de reler “A Consciência de Zeno”, de Italo Svevo, cujo parágrafo final é eloquente: “Talvez, por meio de uma catástrofe inaudita, provocada pelos artefatos, havemos de retornar à saúde. Quando os gases venenosos já não bastarem, um homem feito como todos os outros, no segredo de uma câmara qualquer neste mundo, inventará um explosivo incomparável, diante do qual os explosivos de hoje serão considerados brincadeiras inócuas. E um outro homem, também feito da mesma forma que os outros, mas um pouco mais insano que os demais, roubará esse explosivo e penetrará até o centro da Terra para pô-lo no ponto em que seu efeito possa ser o máximo. Haverá uma explosão enorme que ninguém ouvirá, e a Terra, retornando à sua forma original de nebulosa, errará pelos céus, livre dos parasitos e das enfermidades”.

            Isso parece convergir com uma fala de Ailton Krenak, falando sobre a destruição das florestas, a poluição da atmosfera, do solo e dos Oceanos. Tudo se aproxima de um ápice em que o homem será cuspido do planeta que ele não soube preservar e ao qual nunca ofereceu o amor devido e de que se sentiu partícula integrante. Pretensiosamente exerceu a farsa de “dono” da Terra, que exauriu sem piedade, acabando com os seus recursos naturais.

            Tudo converge e obriga à conclusão de que o bicho-homem, nada obstante se considere racional, age insensatamente e já está a responder por isso. Haverá ainda o tempo suficiente para a salvação?

 

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo. 

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