Prejuízo em cascata

 

*José Renato Nalini

Basta um gesto equivocado para causar um distúrbio na economia mundial. Ao deixar o Acordo de Paris, revogar o controle do perigo que advém da excessiva emissão dos gases venenosos causadores do efeito-estufa, os Estados Unidos causaram um rebuliço.

O mundo sabe que o aquecimento global deriva do uso exagerado de combustíveis fósseis. Daí o caminho da eletrificação das frotas, em que São Paulo é líder no Brasil e na América Latina, graças à sensibilidade do prefeito Ricardo Nunes.

            Só que o gesto ecocida do gigante do norte, até então modelo de democracia liberal, causou imensos prejuízos às fabricantes de veículos elétricos. O montante chega a mais de US$ 65 bilhões, ou R$ 340 bilhões para a indústria automobilística global.

            Ela teve de revisar os planos de produção e investimentos, por causa da brusca mudança de rumo da economia ianque. Houve baixa contábil em todas as grandes montadoras e isso desencadeou venda de ações que reduziu o valor de mercado das empresas.

            É lastimável cancelar créditos para os veículos elétricos, que devem regredir na fabricação e venda. A Ford cancelou sua picape elétrica F150, o mesmo acontecendo com a Volks, a Volvo e Polestar.

            Aqui no Brasil, é também contrassenso fixar IPVA mais caro para os veículos elétricos. Ao contrário, eles deveriam merecer incentivo, pois os gases do efeito estufa derivam, nas grandes cidades, exatamente do número crescente de veículos automotores movidos a combustível fóssil.

            As pesquisas, que nunca foram o forte no Brasil, deveriam pensar em conceber iniciativas para facilitar o carregamento das baterias, incentivar o uso de bicicleta, o pedestrianismo, ampliar as ofertas de transporte coletivo e desestimular o uso do veículo que é o mais egoísta que se conhece: o automóvel. Quase sempre dirigido por uma só pessoa, atravancando os logradouros e gerando uma das causas do estresse permanente dos cidadãos: o invencível e cansativo trânsito veicular.

            As consequências de gestos intempestivos e autoritários repercute no mundo inteiro. Quem responderá por eles?

 

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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