*José Renato Nalini
Desmanche é um vocábulo indesejável.
Lembra, à primeira vista, essas instalações típicas de lugares
subdesenvolvidos, em que os veículos são abandonados para a extração do que
pareça útil e o que sobra é sucata. Países desenvolvidos cumprem a logística
reversa e atendem aos comandos da energia circular. Quem produz qualquer coisa
que tenha vida útil transitória, é obrigado a cuidar de seus resíduos, até
aproveitamento integral do material empregado.
No Brasil, tem sido rotineira a
utilização dos “desmanches” para receber aquilo que não provém da licitude, mas
de infrações penais caracterizadas entre os artigos 155 e 157 do Código Penal.
Não se pode generalizar, mas também não se pode dizer que isso é uma exceção.
Por ambas as circunstâncias,
“desmanches” não deveriam existir. Agora o verbete serve para designar outra medida
nefasta: a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos revogou a conclusão
científica fundamental de que os gases de efeito estufa ameaçam a vida.
É um retrocesso típico ao
negacionismo e à servidão imposta pela cultura petrolífera e carvoeira. Com
essa providência, o campeão da democracia ocidental ofende a ciência universal,
que há muitas décadas vem mostrando à humanidade que dióxido de carbono, metano
e outros quatro gases de efeito estufa, além do material particulado, são os
geradores do efeito-estufa. É o efeito da emissão excessiva desses venenos
oriundos dos combustíveis fósseis.
É surreal chamar a mudança climática
de “farsa”, a “declaração de perigo” uma política desastrosa e celebrar essa
vitória de Pirro, sob argumento de que haverá economia de um trilhão de
dólares.
A tragédia é que uma loucura nunca
vem desacompanhada. A cupidez e a ganância, irmãs da ignorância, vão fazer o
gesto repercutir em outras plagas. Pobre humanidade, pobre planeta.
A esperança vem do Governador da Califórnia, Gavin Newsom. Ele diz: “Se esta decisão imprudente sobreviver aos desafios legais, levará a mais incêndios florestais mortais, mais mortes por calor extremo, mais inundações e secas causadas pelo clima e maiores ameaças às comunidades em todo o país”. Que a sensatez e a ciência prevaleçam.
*José
Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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