Ainda que distante, ela é a única
certeza: a morte. Clarice Lispector disse um dia: “Meu Deus, só agora me
lembrei que a gente morre!”. Sim, parece que ela nunca vai chegar. Mas chega.
A ceifadeira, a indesejada das
gentes, no dizer de Manuel Bandeira, está a rondar a humanidade e todas as
espécies vivas. Se lembrássemos disso com frequência, talvez houvesse menos
ganância, cupidez, volúpia pela acumulação de bens materiais. De que adianta
construir impérios e deixar tudo aqui, para suscitar litígio entre familiares e
a fortuna da advocacia?
Muita preocupação se suprimiria do
mundo, se a vizinhança da partida morasse na consciência humana. Esquecer-se-ia
da maior parte das preocupações frívolas, estéreis, insignificantes. As
relações seriam mais sólidas. Perder-se-ia o respeito humano e se ouviria mais
“eu te amo” do que hoje. Haveria mais compreensão e mais perdão.
Viver-se-ia com intensidade maior.
Sabendo-se que tudo é transitório, passageiro, itinerante. O que fica é o
sentimento. É o bem praticado. É o afeto sincero e honesto construído no
coração das pessoas que cativamos.
Prestar-se-ia mais atenção à
condição apocalíptica do planeta Terra, tão maltratado pelos seus inquilinos
humanos. A consciência se voltaria naturalmente para a transcendência. Haveria
mais preocupação com o divino. Talvez, até, as pessoas se tornassem mais
generosas, mais solidárias, mais fraternas. E aquele absurdo do “amai-vos uns
aos outros” não pareceria tão surreal assim. Poderia se tornar uma prática mais
frequente do que em nossos dias.
Ao pensar na nossa morte, na morte
daqueles que amamos, pensemos também na morte do planeta. Ele dá sinais de
exaustão. Não poderá continuar a sofrer o saque e colher a crueldade humana por
muito mais tempo. O ponto de inflexão, dizem muitos cientistas, já foi
ultrapassado. Já estamos nos minutos extra. O final será catastrófico. E,
lamentavelmente, continuamos a nos comportar como se fôssemos eternos. Como se
não fôssemos finitos. Como se não tivéssemos prazo de validade. Pior para nós!
*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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