Mesmo distante, é certa

 por José Renato Nalini

  Ainda que distante, ela é a única certeza: a morte. Clarice Lispector disse um dia: “Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre!”. Sim, parece que ela nunca vai chegar. Mas chega.

A ceifadeira, a indesejada das gentes, no dizer de Manuel Bandeira, está a rondar a humanidade e todas as espécies vivas. Se lembrássemos disso com frequência, talvez houvesse menos ganância, cupidez, volúpia pela acumulação de bens materiais. De que adianta construir impérios e deixar tudo aqui, para suscitar litígio entre familiares e a fortuna da advocacia?

Muita preocupação se suprimiria do mundo, se a vizinhança da partida morasse na consciência humana. Esquecer-se-ia da maior parte das preocupações frívolas, estéreis, insignificantes. As relações seriam mais sólidas. Perder-se-ia o respeito humano e se ouviria mais “eu te amo” do que hoje. Haveria mais compreensão e mais perdão.

Viver-se-ia com intensidade maior. Sabendo-se que tudo é transitório, passageiro, itinerante. O que fica é o sentimento. É o bem praticado. É o afeto sincero e honesto construído no coração das pessoas que cativamos.

 Prestar-se-ia mais atenção à condição apocalíptica do planeta Terra, tão maltratado pelos seus inquilinos humanos. A consciência se voltaria naturalmente para a transcendência. Haveria mais preocupação com o divino. Talvez, até, as pessoas se tornassem mais generosas, mais solidárias, mais fraternas. E aquele absurdo do “amai-vos uns aos outros” não pareceria tão surreal assim. Poderia se tornar uma prática mais frequente do que em nossos dias.

Ao pensar na nossa morte, na morte daqueles que amamos, pensemos também na morte do planeta. Ele dá sinais de exaustão. Não poderá continuar a sofrer o saque e colher a crueldade humana por muito mais tempo. O ponto de inflexão, dizem muitos cientistas, já foi ultrapassado. Já estamos nos minutos extra. O final será catastrófico. E, lamentavelmente, continuamos a nos comportar como se fôssemos eternos. Como se não fôssemos finitos. Como se não tivéssemos prazo de validade. Pior para nós!

 

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.  

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