Jovens precisam dominar IA, mas empresas devem saber aproveitar nova geração de profissionais

 

Especialista Lacier Dias diz que o desafio não está apenas na adaptação dos jovens: organizações, instituições de ensino e empregadores também precisarão rever processos

A Inteligência Artificial já começou a transformar a porta de entrada dos jovens no mercado de trabalho. Funções tradicionalmente ocupadas por profissionais em início de carreira agora são impactadas por uma automação acelerada, enquanto empresas buscam candidatos com competências que, até poucos anos atrás, eram consideradas diferenciais. Para o professor Lacier Dias, empresário, especialista em estratégia, tecnologia e transformação digital, doutorando pela Fundação Dom Cabral e fundador e CEO da B4Data, o desafio não está apenas na adaptação dos jovens: organizações, instituições de ensino e empregadores também precisarão rever processos de recrutamento, capacitação e desenvolvimento de talentos para evitar uma geração excluída da nova economia digital.

 

A discussão ganhou força após estudos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) demonstrarem que a Inteligência Artificial não representa apenas a substituição de empregos, mas, principalmente, a transformação das atividades realizadas dentro das profissões. Segundo a entidade, cerca de um em cada quatro empregos no mundo apresenta algum nível de exposição à IA generativa, embora o impacto varie conforme a ocupação e o grau de adoção da tecnologia. A recomendação da OIT é clara: o futuro do trabalho dependerá muito mais das decisões tomadas por governos, empresas e instituições do que da tecnologia em si.

 

Essa mudança afeta especialmente quem está entrando agora no mercado. Um estudo publicado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), com base em milhões de anúncios de vagas, mostra que os cargos de entrada estão entre os mais expostos à automação por Inteligência Artificial. A pesquisa aponta ainda que vagas que exigem competências relacionadas à IA oferecem remuneração superior, mas que a contratação para funções altamente expostas à tecnologia tende a diminuir, aumentando a concorrência entre jovens profissionais. O levantamento também conclui que aproximadamente uma em cada dez vagas nas economias avançadas já exige ao menos uma nova competência relacionada às transformações digitais, reforçando a necessidade de atualização constante.

 

No Brasil, os primeiros sinais dessa transformação também começam a aparecer. Estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) estima que cerca de 30 milhões de trabalhadores brasileiros estejam em ocupações potencialmente impactadas pela IA generativa. A pesquisa indica que os efeitos tendem a ser mais intensos entre trabalhadores de 18 a 29 anos, justamente aqueles que ocupam funções iniciais, normalmente utilizadas como porta de entrada para o desenvolvimento profissional. “Isso reforça a necessidade de preparar os jovens para atividades que exijam capacidade analítica, criatividade, pensamento crítico, relacionamento interpessoal e domínio das ferramentas de IA”, ressalta Lacier.

 

Para o especialista, a resposta para esse novo cenário não pode recair apenas sobre os jovens. “As empresas precisarão abandonar modelos tradicionais de contratação baseados exclusivamente em experiência profissional e passar a valorizar competências, potencial de aprendizagem e capacidade de adaptação. Também será necessário investir em programas de treinamento contínuo, integração entre profissionais experientes e recém-contratados e no uso responsável da Inteligência Artificial como ferramenta de apoio, não apenas de substituição da mão de obra”, ressalta o professor.

 

A principal mudança, portanto, na avaliação de Lacier, não será decidir se a Inteligência Artificial substituirá pessoas, mas definir como ela será incorporada ao ambiente de trabalho. “O jovem que dominar tecnologia sem abrir mão das habilidades humanas terá mais oportunidades. Da mesma forma, empresas que enxergarem a IA apenas como mecanismo de redução de custos correm o risco de perder inovação, criatividade e capacidade de formar novos talentos. Em um mercado cada vez mais digital, o sucesso dependerá da adaptação dos dois lados: profissionais preparados para trabalhar com a Inteligência Artificial e organizações capazes de desenvolver pessoas para uma realidade que já começou.”

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