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Tese de que o Brasil teria se saído mal na Copa por causa dos evangélicos na seleção é simplista, diz especialista

Seleção Brasileira no jogo contra a Noruega em 5 de julho de 2026  no Metlife Stadium, New Jersey, Estados Unidos ??

Seleção Brasileira no jogo contra a Noruega em 5 de julho de 2026 no Metlife Stadium, New Jersey, Estados Unidos | Rafael Ribeiro / CBF.

Uma tese no mínimo curiosa ganhou espaço nas redes sociais e sites de notícias desde a eliminação do Brasil da Copa do Mundo: o time perdeu porque a grande maioria de seus jogadores se identifica como evangélica, ao contrário do que acontecia nas seleções que venceram cinco vezes o mundial. A hipótese se baseia numa espécie de geopolítica religiosa do futebol: dos vinte e dois títulos mundiais já disputados só os quatro da Alemanha e o único da Inglaterra foram vencidos por países de maioria protestante. Os demais ficaram com Brasil (5), Itália (4), Argentina (3), Uruguai (2), França (2), e Espanha (1) todos países que um dia tiveram maioria católica.

A ideia, surgida em blogs católicos da Europa e dos EUA, chegou ao jornal britânico Times e ganhou repercussão mundial a partir daí. No Brasil, o tema praticamente não existe nas infindáveis análises e mesas redondas sobre o fraco desempenho do Brasil na Copa.

Para os ingleses do Times, os jogadores brasileiros deixaram de ser rebeldes, avessos a treinos, mulherengos e beberrões, como teriam sido os craques do passado. Também essa ideia é um preconceito. Um futebol brasileiro meio “selvagem” ignora o fato de que as seleções vencedoras do Brasil eram taticamente disciplinadas e os jogadores muito treinados desde as categorias de base.

Segundo levantamento da coluna GENTE, da revista Veja, ao menos 20 dos 26 jogadores convocados por Carlo Ancelotti se identificam como evangélicos. Orações em roda antes das partidas, agradecimentos públicos a Deus e mensagens religiosas nas redes sociais fazem parte da rotina de muitos atletas da seleção.

A seleção teria sido dominada por uma “ética protestante” do trabalho que tirou a espontaneidade e a “alegria” do futebol brasileiro.

"É muito precipitado a gente fazer uma relação direta entre perder uma partida ou perder uma Copa do Mundo e uma afiliação evangélica ", disse à ACI Digital o doutor em Ciências da Religião Gabriel Marquim.

Para Marquim, “a religião tem um papel fundamental na construção das identidades” e “a experiência de fé que está tomando conta dos jogadores na seleção brasileira é um modo religioso neopentecostal”.

Segundo ele, o “neopentecostalismo surge dentro da igreja evangélica dos anos 2000 para cá. No Brasil, sem dúvida nenhuma, ele tem uma grande incidência social, especialmente em comunidades mais carentes e existe uma relação direta entre o neopentecostalismo brasileiro e o neopentecostalismo norte-americano”. 

Marquim diz que o neopentecostalismo reúne três características centrais: uma experiência de Deus "que passa necessariamente pelos sentidos e pela emoção"; a valorização da experiência individual acima da comunitária, o que define como "individualismo exacerbado"; e a teologia da prosperidade, que relaciona a fé ao sucesso financeiro.

Marquim vê reflexos dessa forma de compreender a fé na maneira como alguns atletas interpretam vitórias e derrotas. "Existe uma desresponsabilização de si”, diz o estudioso. “Se eu fui muito bem numa partida, foi porque Deus quis. Se eu fui muito mal, também foi porque Deus quis ".

Depois da eliminação para a Noruega, por exemplo, o atacante Endrick reconheceu que desperdiçou uma oportunidade de gol, mas acrescentou: "Foi um momento em que eu poderia ter feito melhor. Eu não fiz isso, mas agradeço a Deus pela oportunidade". Em outra mensagem publicada nas redes sociais, voltou a agradecer a Deus pela oportunidade de disputar a Copa do Mundo.

Uma mudança real no perfil religioso do Brasil

A discussão parte de uma transformação real documentada pelo Censo Demográfico de 2022, segundo o qual a proporção de católicos caiu de 65,1% da população brasileira em 2010 para 56,7% em 2022. No mesmo período, os evangélicos cresceram de 21,6% para 26,9%, enquanto também aumentou o número de brasileiros sem religião.

A própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) reconhece essa mudança nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032. Nos números 35 e 36, o documento diz que cresce uma experiência religiosa marcada pela valorização da autonomia pessoal, pela ruptura com tradições recebidas e por formas mais individualizadas de viver a fé.

Os “desigrejados” e uma leitura “freestyle” da fé

O teólogo Raylson de Araújo disse à ACI Digital que a mudança religiosa do Brasil é um fenômeno real, mas considera que a tese é “uma conversa de boteco” que simplifica excessivamente essa transformação. Para ele, ela "desconsidera um ponto importante": o crescimento dos chamados evangélicos desigrejados.

Segundo ele, a principal mudança não é simplesmente o aumento do número de jogadores evangélicos, mas a transformação da forma como muitos deles vivem a própria fé.

Raylson analisa a presença dos chamados Atletas de Cristo, como Kaká e Luizão, na seleção que conquistou o último título mundial do Brasil em 2002. "Os Atletas de Cristo das seleções campeãs eram de fato Atletas de Cristo. Você tinha católicos não praticantes jogando ao lado de evangélicos com forte vínculo religioso. Agora o cenário mudou. Temos muitos jogadores evangélicos não praticantes", disse.

Raylson afirma que muitos dos atletas atuais da seleção mantêm uma manifestação pública de fé, mas sem acompanhamento pastoral ou inserção constante em uma comunidade eclesial.

"Eles não são discipulados pelos seus pastores. Então vão fazendo uma leitura quase 'freestyle' da Bíblia e também da teologia."

A análise de Raylson coincide com a de Marquim, que também observa o crescimento de pessoas que professam a fé cristã sem participação constante em uma igreja. "Tem crescido no Brasil a quantidade de pessoas que creem em Deus, mas não estão numa igreja. Nós temos jogadores hoje na seleção brasileira que são evangélicos, mas não estão dentro de uma igreja evangélica", disse Marquim.

"A questão não é a influência da teologia dessas igrejas em relação à cosmovisão desses jogadores, mas aquilo que esses jogadores entendem da teologia das suas igrejas”, disse Raylson.

O teólogo também rejeita a ideia de que a mudança religiosa, por si só, explique o desempenho esportivo da seleção. Segundo ele, atletas que professam publicamente a fé cristã continuam obtendo resultados expressivos em outras modalidades esportivas.

Como exemplo, Raylson cita o desempenho brasileiro em modalidades como skate e tênis de mesa e lembra a skatista Rayssa Leal, que frequentemente manifesta publicamente sua fé cristã.

"A gente vê também o Brasil marcando presença e conquistando resultados em outros esportes e com atletas que declaram a sua fé. O fenômeno não é tão simplista como alguns talvez estão desenhando ou tentam desenhar", concluiu.

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