Servidores da saúde e da educação precisam de apoio psicoemocional

 

Artur Marques*
 

Pesquisa recém-divulgada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) escancara uma realidade preocupante sobre a situação psicoemocional dos servidores públicos das áreas da saúde e da educação no Estado de São Paulo. Segundo o levantamento, 97,6% dos profissionais do ensino e 81,1% dos que atuam na assistência médico-hospitalar associam algum tipo de sofrimento emocional às condições de trabalho.
 

Dentre os funcionários da educação, 41% relatam sofrer de ansiedade ou síndrome do pânico, 33,5% convivem com distúrbios do sono e 29,8% apontam quadros de depressão. Quase um quarto dos entrevistados (24,8%) precisou afastar-se do trabalho por questões relacionadas à saúde mental. Na área das unidades de atendimento e hospitais, os índices também são expressivos: 31,9% relatam insônia, 29,4% convivem com ansiedade ou pânico, 25,2% enfrentam depressão e 16% já necessitaram de afastamento por adoecimento psicológico.
 

Quando um número tão elevado de profissionais de setores prioritários, estratégicos e decisivos para os cuidados com a população, formação escolar das sucessivas gerações e serviços de saúde afirma sofrer emocionalmente em decorrência do trabalho, não estamos diante de casos isolados. Trata-se de um problema estrutural, que precisa ser abordado de maneira urgente e eficaz pelas autoridades competentes.
 

Os reflexos dos dados revelados pela pesquisa não se limitam à esfera emocional, pois 80,2% dos trabalhadores da educação e 72,3% dos profissionais da saúde também associam problemas físicos às suas atividades laborais. Mais grave ainda: 60,3% dos servidores da educação e 54,5% dos trabalhadores do sistema médico-hospitalar afirmam ter se afastado do trabalho por motivos de saúde nos últimos anos.
 

Há uma conexão evidente entre sofrimento psíquico e adoecimento físico. O estresse crônico, a pressão constante, a eventual sobrecarga de trabalho e a ausência de condições adequadas para o exercício profissional acabam se manifestando também em dores musculares, problemas cardiovasculares, distúrbios gastrointestinais e inúmeras outras enfermidades. O corpo passa a expressar aquilo que a mente já não consegue suportar.
 

Na educação, o cenário parece ainda mais crítico. A pesquisa aponta que 86,3% dos servidores relacionam o uso intensificado de ferramentas digitais ao aumento da vigilância sobre o trabalho, enquanto 78,3% associam essas tecnologias à ampliação das cobranças individuais e das metas. Na visão dos servidores, em vez de servirem exclusivamente para facilitar processos, muitos recursos tecnológicos passaram a representar instrumentos adicionais de controle e pressão.
 

O resultado é um ambiente profissional cada vez mais exaustivo, segundo apontou a pesquisa. Professores levam atividades para casa, permanecem conectados fora do expediente, convivem com salas lotadas e enfrentam desafios crescentes de gestão de conflitos. Na saúde, o déficit de pessoal, a alta demanda e o contato permanente com situações de sofrimento humano ampliam o desgaste emocional, conforme os achados do levantamento do DIEESE.
 

Diante desse quadro, é fundamental o apoio a esses servidores por suas entidades representativas. A AFPESP, por exemplo, mantém iniciativas voltadas ao acolhimento e ao apoio psicológico de seus associados. Entretanto, por mais relevantes que sejam essas ações, elas não podem suprir totalmente ou substituir a responsabilidade do poder público. O enfrentamento do adoecimento mental exige políticas permanentes, estruturadas e abrangentes. Penso ser urgente ampliar programas de assistência psicológica, fortalecer equipes multiprofissionais, melhorar as condições de trabalho, reduzir déficits de pessoal e criar ambiente institucional que valorize a importância dos funcionários para a sociedade.
 

Cuidar das condições mentais dos profissionais da educação e da saúde, além de fazer justiça a quem atua em áreas decisivas, é uma medida crucial para garantir a qualidade dos serviços prestados à sociedade. A pesquisa do DIEESE cumpriu papel relevante ao dimensionar o sentimento de milhares de servidores.

Entretanto, os dados não podem ficar restritos aos debates acadêmicos, sindicais ou institucionais, devendo subsidiar políticas públicas imediatas para mitigar um problema que, dada a importância da saúde e do ensino, afeta de modo direto a população.

 

*Artur Marques é o presidente da Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo (AFPESP).

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