Com jogos à noite, o setor enxergou uma oportunidade para transformar futebol em consumo, convivência e lucro.

Assistir a um jogo da Seleção deixou de ser apenas ligar a televisão e reunir a família na sala. Em bares, restaurantes, casas de eventos e espaços de entretenimento, a Copa do Mundo passou a ser tratada como uma data de grande movimentação, capaz de atrair grupos, ampliar o consumo e transformar partidas em grandes eventos. Telões, mesas reservadas, música, ativações, cardápios especiais e programação antes e depois dos jogos mostram que o futebol também virou estratégia para ocupar espaços e criar encontros.
Para Ricardo Jacobs, empreendedor, investidor e empresário, esse movimento ajuda a explicar uma mudança mais ampla no comportamento do consumidor. O público não busca apenas assistir ao jogo fora de casa, mas viver o evento com outras pessoas, em um ambiente preparado para isso. A experiência deixa de ser um detalhe e passa a fazer parte do valor percebido pelo cliente.
Um levantamento da Abrasel, entidade que representa bares e restaurantes no país, mostrou que 52% dos estabelecimentos pretendiam transmitir os jogos da Copa do Mundo de 2026. Entre eles, 80% esperavam aumento no faturamento em comparação com dias sem partidas, e a maior parte projetava crescimento de até 20% nas receitas durante a competição. O dado é relevante porque mostra que o torneio não movimenta apenas o interesse esportivo, mas também o planejamento de pequenos e médios negócios ligados à alimentação fora do lar.
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo também projetou impacto expressivo do torneio no setor. Segundo levantamento divulgado pela Panrotas, a fase de grupos da Copa de 2026 deve movimentar R$ 2,42 bilhões em bares e restaurantes no Brasil, valor 15,7% maior do que o registrado no Mundial de 2022.
O fenômeno também passa pelo horário dos jogos. Partidas à noite favorecem encontros fora de casa, especialmente em cidades com forte cultura de bares, restaurantes e eventos. Para os negócios, isso exige preparo. Não basta colocar uma televisão ligada. O cliente que decide sair para assistir a uma partida espera boa visão do jogo, atendimento rápido, ambiente confortável, segurança, preço claro e uma programação que justifique a escolha.
“O jogo é o motivo que leva a pessoa até o local, mas a experiência é o que faz ela consumir, permanecer e voltar. Quando um bar ou uma casa de eventos entende isso, deixa de depender apenas do placar e passa a criar uma jornada para o público”, afirma o empresário.
Essa lógica aproxima o futebol de um mercado que cresceu muito nos últimos anos: o da economia da experiência. O consumidor aceita pagar por um ambiente quando percebe que ali existe algo além do produto básico. Em uma Copa, isso pode aparecer em uma reserva bem organizada, em uma tela maior, em uma torcida animada, em uma ação de marca, em um cardápio temático ou em uma programação que transforma 90 minutos de jogo em várias horas de permanência.
Para bares e restaurantes, a oportunidade vem acompanhada de desafios. Dias de grande movimento exigem controle de estoque, escala de equipe, treinamento, planejamento de fluxo, comunicação clara com o público e capacidade de atender picos de demanda sem perder qualidade. Um erro na operação pode comprometer a experiência e afastar justamente o cliente que o estabelecimento tenta conquistar.
“O empresário precisa olhar para eventos desse porte como um calendário de experiência. Isso envolve operação, equipe, ambiente, comunicação e pós-venda. Quem organiza bem o momento consegue transformar um jogo em clientela futura”, explica Ricardo.
Mesmo depois do torneio, o aprendizado permanece. Bares, restaurantes e casas de eventos que conseguem criar bons laços durante o mundial podem usar a mesma lógica em finais de campeonato, lutas, shows, premiações, datas comemorativas e lançamentos. O futebol, nesse caso, funciona como vitrine de um comportamento que sempre está em crescimento.
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