*José Renato Nalini
E, quando cair, talvez seja tarde
demais. O Parlamento brasileiro não percebeu que a maior ameaça a recair sobre
a humanidade é o aquecimento global. Não só aprova o PL da Devastação, como
estimula a exploração de petróleo na foz do Amazonas, procura desestabilizar a
sólida estrutura de proteção ecológica iniciada na década de setenta e
formalmente consolidada com a Constituição Ecológica de 1988.
A elaboração do Orçamento de 2026 é
a mais cabal prova disso. Os deputados federais e senadores destinaram míseros
0,58% das emendas individuais ao Orçamento, para ações ligadas ao meio
ambiente. Isso significa reservar 154 milhões – o que parece bastante – mas é
quase nada. Metade de um por cento, de uma proposta de 26,6 bilhões.
Isso foi apurado pelo INESC –
Instituto de Estudos Socioeconômicos, a demonstrar a pouca importância que os
representantes do povo dedicam a questões como gestão de riscos e desastres,
enfrentamento das emergências climáticas e iniciativas urbanas de adaptação. Já
nem se pode falar em mitigação e atenuação. Agora é adaptar as cidades para que
não ocorram tantas mortes em virtude de enchentes, inundações, deslizamentos e
desmoronamentos. Sem falar na morte silenciosa causada pelas ondas de calor e
as dolorosas enfermidades geradas pela atmosfera gravemente envenenada.
O que os parlamentares quiseram com
essa escassa destinação? Quase todas são endereçadas à implementação da agenda
nacional de proteção, defesa, bem-estar e direitos animais. É óbvio que todos
os viventes merecem atenção e proteção. Mas a prioridade precisaria contemplar
a indigência ecológica a que estão relegados milhões de semelhantes: os que
habitam as ruas, as palafitas, as favelas, os cortiços, as moradias preferencialmente
merecedoras do cataclismo climático. Aqui está muito clara a “opção
preferencial pelos pobres”. Embora as adversidades climáticas sejam
democráticas e atinjam a todos, os que mais sofrem são os miseráveis, os
indigentes, os excluídos, os desabonados da sorte.
Ignoram a urgência do saneamento
básico, de investir no programa “Água em quantidade e qualidade para sempre”,
diante de gravíssima crise de escassez hídrica e de séria contaminação daquela
que resta. Por sinal, insuficiente para atender à demanda de uma população que
cresce e precisa de água para sobreviver.
É o momento de contemplar as
próximas eleições e escolher quadros afinados com a urgência ecológica. Sem
isso, quando a ficha cair, talvez já não haja quem possa lamentar. A experiência
humana sobre o planeta mereceria melhor tratamento.
*José
Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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