*José Renato Nalini
A música na voz de Nara Leão é
gatilho de reminiscências da juventude. “Pois há menos peixinhos a nadar no
mar, do que os beijinhos que darei na sua boca...”.
Infelizmente, o “menos peixinhos”
decorre de uma causa mais prosaica e mais triste. O oceano brasileiro – e o do
mundo está igual – se torna um espaço proibido para a fauna marinha. São os
impactos do plástico a afetarem a biodiversidade marinha.
Para a Organização Oceana, há dez
anos no Brasil, os impactos da poluição plástica e do microplástico na fauna
marinha revela uma crise ambiental de proporções alarmantes. Dezenas de
milhares de organismos, desde o zooplâncton e peixes até tartarugas, mamíferos
e aves marinhas, muitos já ameaçados de extinção, estão ingerindo quantidades
crescentes de plástico, a cada dia.
Os principais responsáveis por essa
poluição: os produtos e embalagens plásticas descartáveis. Esses fragmentos são
encontrados no trato digestivo, nas brânquias e em outras partes do corpo de
diversas espécies. E oferecem riscos para a saúde humana, vez que
microplásticos já foram detectados em órgãos vitais como coração, cérebro,
pulmões e fígado. Sem falar nas artérias. As cirurgias cardiovasculates têm
detectado microplástico a envolver as veias e ele se infiltra até na placenta
das gestantes.
Há um projeto de lei em curso –
2524/2022 – que propõe a implementação de uma economia circular do plástico.
Ele precisa ser aprovado. Também precisamos que a indústria, auxiliada pela
Academia, ofereça uma alternativa ao plástico. Investir em pesquisa e
desenvolvimento é outra meta. E, principalmente, fazer com que impregne a
consciência da cidadania essa terrível volúpia de consumir demais, desperdiçar
demais e descartar erradamente, misturando o que é orgânico e aquilo que pode
ser reaproveitado mediante reciclagem.
Se não atentarmos para isso,
continuaremos a perder espécies, pondo em risco até a nossa própria. E a beleza
dos mares ficará nas canções populares, dentro da arqueologia paradisíaca.
Estamos acabando com os paraísos terrestres que herdamos sem nada ter
contribuído para tanto. Nossos descendentes merecem mais do que isso.
*José
Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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