Especialistas defendem cooperação internacional e integração entre Estado e setor privado para enfrentar crime organizado transnacional


➢ Segundo dia de seminário internacional na USP reuniu especialistas brasileiros e estrangeiros para debater lavagem de dinheiro, crimes cibernéticos, controle territorial, portos, cooperação público-privada e crime-terror

➢ Painel sobre tabaco, cigarros eletrônicos e nicotina apontou que o mercado ilegal movimenta cerca de R$ 9 bilhões por ano no Brasil e fortalece o crime organizado
 



“O crime organizado transnacional já não se esconde no chamado submundo. Está intimamente entrelaçado com as economias convencionais, o direito, a política e a tecnologia” - afirmou o professor Michael Miklaucic (USP/University of Chicago), atual titular da Cátedra Oswaldo Aranha, durante abertura do Seminário. Crédito da foto: Mareh Audiovisual.

 

São Paulo, 10 de junho de 2026 - O enfrentamento ao crime organizado transnacional exige respostas cada vez mais integradas entre governos, organismos internacionais, agências de segurança e setor privado. Essa foi uma das principais conclusões do segundo e último dia do Seminário Internacional 2026 – Mercados Sitiados: Crime Organizado Transnacional e a Ascensão das Economias Ilícitas nas Américas, realizado na Universidade de São Paulo (USP).


“O crime organizado transnacional opera hoje por meio de redes profundamente interligadas. É preciso compreender que os próprios regimes de proibição frequentemente fortalecem essa arquitetura, servindo como motor para uma complexa estrutura de irrigação financeira que retroalimenta e funde as economias lícitas e ilícitas em todas as esferas da sociedade”, alertou o coordenador da ESEM-USP, professor Leandro Piquet, durante abertura do encontro.

 

Ao longo dos dois dias de programação, especialistas brasileiros e estrangeiros analisaram como organizações criminosas vêm ampliando sua presença em mercados legais e ilegais, explorando fragilidades regulatórias, cadeias produtivas e sistemas financeiros. Os debates abordaram temas como economias ilícitas na Bacia Amazônica e erosão da presença do Estado, infiltração dos mercados ilícitos de combustíveis nas Américas, lavagem de ativos, crimes cibernéticos, governança criminal, proteção de portos, cooperação público-privada e a relação entre mercados ilícitos e organizações criminosas.
 

O General Juan Carlos Buitrago, Renan Pieri e Leandro Piquet debatem os impactos do comércio ilícito de tabaco e nicotina sobre o crime organizado transnacional nas Américas. Crédito da foto: Mareh Audiovisual.

 

No painel “O Comércio Ilícito de Tabaco e Produtos de Nicotina nas Américas e suas Relações com o Crime Organizado Transnacional”, especialistas discutiram como o crescimento dos mercados ilegais de cigarros, cigarros eletrônicos (vapes) e outros produtos de nicotina tem ampliado fontes de receita para organizações criminosas na região. Participaram do debate o General Juan Carlos Buitrago, ex-oficial da Polícia Nacional da Colômbia, e Renan Pieri, professor da FGV EAESP, sob mediação do professor Leandro Piquet, coordenador da ESEM-USP.
 

Ao longo da discussão, os especialistas alertaram que o contrabando de cigarros, vapes e outros produtos de nicotina deixou de representar apenas um desafio regulatório e tributário para se consolidar como uma importante fonte de financiamento de organizações criminosas, contribuindo para a geração de receita, a lavagem de dinheiro e o financiamento de outras atividades criminosas. O tamanho do mercado e seus impactos econômicos chamaram atenção dos participantes: cerca de um terço do mercado brasileiro de cigarros já é abastecido por produtos ilícitos.
 

Com base em dados do Instituto IPEC de 2024, Renan Pieri destacou que o mercado ilegal movimenta aproximadamente R$ 9 bilhões por ano no país, valor equivalente a cerca de dois terços do que organizações criminosas movimentam com a cocaína. O pesquisador alertou que políticas focadas exclusivamente no aumento da tributação ampliam o diferencial de preços entre os mercados legal e ilegal, incentivando a migração de consumidores e fortalecendo as receitas das organizações criminosas. “O cigarro ilegal não é desvio marginal, ele é uma engrenagem financeira do crime organizado”, afirmou Pieri, destacando que essa atividade não apenas é sustentada por outras práticas criminosas, mas também contribui para financiá-las.
 

O avanço do consumo de dispositivos eletrônicos, especialmente entre os jovens, também foi apontado como um dos principais desafios discutidos no painel. Segundo o General Juan Carlos Buitrago, o fortalecimento desse mercado tem sido acompanhado pela atuação crescente de redes criminosas responsáveis pela importação e distribuição clandestina desses produtos. “O comércio de produtos se converteu na principal modalidade de lavagem de dinheiro do crime organizado”, afirmou o especialista. Segundo ele, na Colômbia, 36% do mercado ilícito nas ruas já corresponde a vapes controlados por organizações criminosas.

 

Ao comentar o crescimento do consumo desses dispositivos, Leandro Piquet destacou que “no caso específico dos vapes, temos a estimativa de que o mercado está na faixa de 7,8% da população”.


 

Respostas ao avanço das economias ilícitas

 

O painel “Lavagem de Ativos, Fraudes e Crimes Cibernéticos: A Arquitetura Financeira do Crime Transnacional” reuniu especialistas para discutir a estrutura financeira que sustenta os mercados ilícitos globais. Segundo David M. Luna, fundador da International Coalition Against Illicit Economies (ICAIE), o enfrentamento dessas redes exige maior integração entre governos, setor privado e sistema financeiro. “A lavagem de dinheiro é facilitada por uma verdadeira 'arquitetura habilitadora' e por sistemas paralelos de transferência de valores. Além disso, esbarramos na falta de vontade política para a fiscalização, o que gera inação e sustenta as redes que viabilizam esses crimes. O ponto crucial é como engajamos o setor privado e o mercado financeiro nessa responsabilidade. Precisamos de uma abordagem muito mais ampla e aprender com os casos mais recentes."

 

Já o painel “Governança Criminal e Controle Territorial: Insurgência Criminal e Respostas das Agências de Segurança Pública” analisou como organizações criminosas exercem controle sobre territórios e desafiam estruturas estatais. “A resposta não é buscar melhorias através do mero reforço das Forças Armadas, mas sim focar na inteligência”, afirmou Rebecca Chávez, presidente e diretora executiva do Inter-American Dialogue.

 

O papel da logística internacional também esteve em debate durante o Seminário no painel “Portos, Logística Marítima e Crime Organizado nas Américas: Proteção de Infraestruturas Logísticas Críticas”. Maurício Santos Silva, da Receita Federal, explicou os obstáculos para identificar atividades ilícitas em meio ao enorme volume de operações legítimas do comércio exterior. "O desafio é o que está ilícito dentro da grandiosidade de produtos e operações; é quase como se a gente procurasse uma agulha no palheiro. Agora, imagine um palheiro dentro de um contêiner. Esse é, atualmente, o desafio que temos na aduana brasileira.", explicou.

 

A infiltração do crime organizado na economia formal também foi discutida no painel “Cooperação Público-Privada contra a Captura de Mercados e a Infiltração Criminal”. Marcelo Thomé, vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e presidente da FIERO, alertou para a urgência de cooperação público-privada: “O mercado ilícito custa cerca de R$ 107 milhões de reais em perdas diretas decorrentes de crimes e sinistros. Atualmente, três em cada dez indústrias brasileiras já sofreram com esse problema. Isso demonstra a fragilidade do nosso tecido produtivo e limita a capacidade de atuação do Estado”. O “Nexo Crime-Terror: Mapeando a Convergência entre Crime Organizado e Redes Extremistas” encerrou os painéis da edição 2026 do Seminário.

 

O evento foi promovido pela Cátedra Oswaldo Aranha de Segurança e Defesa (COA) e pela Escola de Segurança Multidimensional (ESEM-USP) e aconteceu na FEA/USP. Além dos debates sobre os desafios impostos pelo crime organizado transnacional, o seminário também marcou o anúncio de novas iniciativas acadêmicas voltadas à produção de conhecimento sobre o tema. Durante o encontro, o professor Michael Miklaucic (USP/University of Chicago), atual titular da COA e um dos principais especialistas internacionais em segurança transnacional e governança, anunciou duas novas iniciativas acadêmicas voltadas ao estudo do crime organizado transnacional: a criação de uma rede latino-americana de universidades dedicada ao tema e um novo programa de pesquisas sobre economias ilícitas na Amazônia.


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