Solidão & depressão


            *José Renato Nalini

            O mistério do suicídio é ainda mais misterioso quando o suicida escolhe uma data significativa para partir. Foi o que aconteceu com o poeta simbolista Hermes Fontes, em 26 de dezembro de 1930.

            Seu nome era Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes foi um compositor e poeta brasileiro. Nasceu em 28 de agosto de 1888, em Boquim, no Sergipe. Falecimento em 26 de dezembro de 1930, no Rio de Janeiro.

            Foi o fundador da Academia Sergipana de Letras, mas tentou, cinco vezes, ser eleito para a Academia Brasileira de Letras e os “donos do Olimpo” não permitiram.

            Para quem o conheceu, era uma pessoa amável, sempre com palavras generosas para com quem encontrasse. Foi um injustiçado. Sua tragédia estava diante de todos, mas ninguém a enxergava. Órfão de pai e mãe, foi criado com o pão alheio e conseguiu superar a carência do lar materno/paterno biológico. Impôs-se como poeta. Dentre suas obras mais citadas, constam os livros Apoteoses, Gêneses e Microcosmo.

            Nas cinco vezes em que tentou ingressar à ABL, sua votação foi ignominiosa. Casou-se mal. A mulher tinha comportamento dissoluto. A Revolução de 1930 o exonerou como oficial de gabinete do Ministro Konder. Teve de voltar à repartição de origem, os Correios. Lá, foi muito mal recebido pelos seus antigos colegas, que o desprezaram por haver servido a um governo que os revolucionários derrubaram.

            Portas se fechando, sentiu-se desmoronar. Incapaz de reiniciar novo ciclo familiar, contido, tímido, retraído, tudo lhe pareceu insuportável.  Não conseguiu suportar as portas fechadas. Sozinho, no Natal, tirou a vida com uma bala na cabeça. Coisa tristíssima: o dia do nascimento do Salvador, que renova as esperanças dos mortais, alguém tira a própria vida. Acaba com sua existência sofrida e sofrível.  

            Hoje é mais venerado do que foi em vida. Como é necessária uma palavra de conforto para quem está só e não tem com quem conversar. O suicídio é uma fuga inglória. O instinto de autopreservação é muito forte. Para vencê-lo, é necessária uma dose extraordinária de coragem. Mas a pessoa certa, na hora certa, é capaz de eliminar a intenção suicida de quem, por ser ouvido por outrem, já não se sente mais sozinho.

 

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

Comentários