O declínio das Academias

 


            *José Renato Nalini

            Algumas pessoas ilustres e dignas de figurarem nas Academias prestigiadas se recusam ao ritual. Não querem se inscrever, não se conformam com a necessidade de cortejar os eleitores e, simplesmente, respondem “não ter espírito acadêmico”.

            Outras, que não teriam, ao ver da maioria acadêmica, os atributos essenciais ao pertencimento, essas lutam e até chegam a perder a compostura, de tanto que perseguem a gloríola da eleição para a falaciosa imortalidade.

            A Academia Brasileira de Letras foi fundada em 1897 por Machado de Assis e um grupo de amigos. É a mais importante do Brasil. Nela, inspiraram-se as demais, embora haja notícias de academias bem anteriores ao século XIX.

            Mas a própria ABL já teve seus senões. “Imortais” já brigaram com ela, já deixaram de frequentá-la. Já a criticaram. Só não deixaram de ser acadêmico, pois isso é a característica de uma Academia de Letras que quer ser conhecida e chamada assim.

            Um dos mais críticos acadêmicos da ABL foi Humberto de Campos. Em 31 de maio de 1928, por exemplo, ele escrevia em seu “Diário Secreto”:

            As reuniões da Academia tornam-se dia a dia, ou melhor, de mês para mês, ou de semana para semana, mais intoleráveis. O desinteresse pelas letras, demonstrado a cada passo, vai transformando a instituição em uma espécie de feudo da diretoria, a qual delibera como lhe apraz, sem que os acadêmicos protestem contra a usurpação.

            Essa situação tem a sua origem, sem dúvida, na invasão da Academia por indivíduos que não fazem profissão das letras, e que não podem, por isso, interessar-se por elas. Em geral, o indivíduo que sonha com o fardão acadêmico passa anos e anos, ou meses, escrevendo um livro. Com este, e com as suas relações mundanas, faz-se eleger. E uma vez eleito, nunca mais escreve nada, pois já tem o que desejava, e que era, precisamente, a consagração acadêmica.

            Permaneça a Academia no mesmo caminho, e ano virá em que os quarenta cérebros que coroam os fardões, não concorrerão com um volume, sequer, para a bibliografia brasileira”.

            Esse vaticínio não se cumpriu. A ABL e as demais Academias continuam a produzir livros e mais livros. Só falta mesmo é quem os leia!

 

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo. 

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