Campanha Gaúcha ganha obra inédita com a base científica da Indicação Geográfica de vinhos

 




 

Alguns rótulos da Indicação de Procedência Campanha Gaúcha. Foto: Divulgação

Em comemoração aos seis anos da Indicação de Procedência Campanha Gaúcha, a Embrapa lança a obra “Campanha Gaúcha: Indicação Geográfica de Vinhos”, uma publicação técnico-científica que reúne, de forma inédita e sistematizada, os fundamentos da região como Indicação de Procedência (IP) de vinhos. A publicação está disponível gratuitamente em formato digital no portal da Embrapa.


Resultado de um amplo esforço de pesquisa, desenvolvimento e inovação, o livro reuniu uma equipe multidisciplinar de especialistas de diferentes instituições (lista completa abaixo), coordenado pela Embrapa Uva e Vinho, tendo como editores técnicos Jorge Tonietto e Ivanira Falcade (in memoriam), pesquisadores pioneiros na temática das IGs no Brasil. A obra consolida conhecimentos que foram determinantes para estruturar e reconhecer, de direito, a Indicação Geográfica (IG) pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), ocorrido em 2020.


Para Jorge Tonietto, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho que liderou o processo de estruturação da Indicação de Procedência da Campanha Gaúcha e é um dos editores do livro, a publicação constitui-se num marco histórico, já que poucas indicações geográficas de vinhos do mundo que contam com uma caracterização multitemática tão detalhada. “A publicação evidencia o ativo de propriedade intelectual dos produtores, que organiza e agrega valor ao território, fortalece a identidade regional e amplia a competitividade dos vinhos no mercado”, destaca Tonietto. Ao conectar ciência, tradição, qualidade associada à origem e imagem, a obra demonstra como a Campanha Gaúcha se posiciona, hoje, como um importante território consolidado no cenário vitivinícola nacional e internacional.


Para a presidente da Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha, Rosana Wagner, a publicação representa a consolidação de um trabalho coletivo que une ciência, dedicação, organização produtiva e identidade territorial, além de visão de futuro para a região. “A Indicação Geográfica da Campanha Gaúcha é fruto de uma construção que envolve pessoas, história e um profundo compromisso com a qualidade. Desde a fundação da Associação, temos trabalhado de forma contínua no aperfeiçoamento das práticas produtivas, na valorização do nosso território e na consolidação de uma identidade própria para os nossos vinhos. Este livro traduz, com sensibilidade e rigor científico, tudo aquilo que foi construído ao longo dessa trajetória”, avalia. Ela complementa que mais do que um registro técnico, a publicação reconhece e legitima o esforço de tantos produtores que acreditaram no potencial da região.


Embrapa: protagonista na construção das Indicações Geográficas de vinhos do Brasil


Para o chefe-geral da Embrapa Uva e Vinho, Adeliano Cargnin, o lançamento da obra representa um marco na consolidação da vitivinicultura brasileira baseada em ciência e identidade territorial. “A publicação ‘Campanha Gaúcha: Indicação Geográfica de Vinhos’ sintetiza um trabalho de mais de uma década, que integrou pesquisa, desenvolvimento e inovação para transformar conhecimento em valor para o território. A Embrapa teve um papel estruturante nesse processo, articulando instituições, apoiando os produtores e gerando as bases técnicas que permitiram o reconhecimento da Indicação Geográfica”, destaca Cargnin. “Essa é uma entrega concreta da ciência pública brasileira, que reforça nosso compromisso com a inovação, a competitividade e o desenvolvimento sustentável da vitivinicultura nacional”, pontua Cargnin.


Desde a década de 1990, a Embrapa Uva e Vinho atua como instituição pioneira na introdução e fomento ao conceito de Indicações Geográficas no país, promovendo sua aplicação como instrumento de inovação, agregação de valor e organização territorial da produção vitivinícola.


No caso da Campanha Gaúcha, o papel da Embrapa foi central: a instituição liderou um projeto estruturante que integrou universidades, centros de pesquisa e o setor produtivo, gerando os elementos técnicos necessários para delimitação da área, caracterização do terroir e estabelecimento dos requisitos de produção. Esse processo foi motivado por uma demanda direta dos produtores da região, organizada através da Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha, evidenciando a sinergia entre ciência e setor produtivo.


Mais do que documentar um processo, o livro se consolida como referência para novas iniciativas de estruturação de Indicações Geográficas no Brasil. “A metodologia adotada, baseada em ciência aplicada ao entendimento do meio geográfico e relação com o produto, articulação institucional e protagonismo dos produtores, pode servir de referência para outros territórios”, destaca Tonietto.


Ao reunir conhecimento técnico e construção histórica de base territorial, a obra reforça o papel da Embrapa como agente estratégico no desenvolvimento da vitivinicultura brasileira, contribuindo para a construção de uma identidade nacional do vinho baseada em diversidade, qualidade e inovação.


Uma obra estruturante para entender o terroir da Campanha Gaúcha


“A publicação organiza o conhecimento científico em cinco grandes partes, que dialogam entre si para explicar como se consolida, na prática, a construção de uma Indicação Geográfica”, pontua Jorge Tonietto. Com 274 páginas em 15 capítulos, o livro apresenta uma abordagem integrada que conecta o vinho com os fatores naturais, humanos e simbólicos do território.


Ao longo da obra, evidencia-se o caráter multidisciplinar do trabalho, resultado da atuação integrada da Embrapa Uva e Vinho, Embrapa Clima Temperado, Universidade de Caxias do Sul (UCS), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), além de instituições, incluindo a Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha, Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) e Fundação de Apoio à Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário Edmundo Gastal (Fapeg).


O projeto foi financiado pela Finep, no âmbito do Sistema Brasileira de Tecnologia – SIBRATEC, através da Rede de Centros de Inovação em Vitivinicultura – Recivitis. “Este foi o primeiro projeto financiado pela Recivitis, com total aderência ao Sibratec ‘de congregar instituições de ciência e tecnologia e empresas brasileiras na prática de inovação em vitivinicultura’, sendo referencial na formação da carteira de projetos ao longo das atividades da Rede”, segundo o pesquisador José Fernando da Silva Protas, coordenador da Rede à época.


O livro

Base física e território como ponto de partida


Os capítulos da primeira parte apresentam o processo de estruturação da Indicação Geográfica, desde a demanda dos produtores até a delimitação oficial da área, resultado de estudos detalhados conduzidos por equipes interinstitucionais. Na sequência, o livro aprofunda a análise do contexto geográfico da região, resgatando igualmente sua formação histórica e ocupação do espaço que moldou a paisagem e a identidade local.


Os capítulos seguintes detalham os elementos físicos que compõem o terroir, como clima, relevo, geodiversidade e solos. A obra demonstra que a Campanha Gaúcha, localizada no sudoeste do Rio Grande do Sul, apresenta uma combinação singular de fatores naturais, com relevo predominantemente plano a suave ondulado em altitudes entre 50 e 300 m, clima frio no inverno, porém sendo a região mais quente durante o ciclo vegetativo da videira dentre as produtoras de vinhos finos do sul do Brasil, que favorecem a produção de uvas e vinhos originais de qualidade. O mapeamento detalhado dos solos vitícolas da região, apresentado no livro, constituem informação inédita de apoio aos produtores para qualificar ainda mais a produção local.


Fatores humanos: a viticultura e a enologia da região


Na segunda parte, o foco está centrado nos fatores humanos que estruturam a vitivinicultura regional. A obra analisa o uso e a cobertura do solo da região, detalhando a viticultura. Também são apresentados dados do cadastro vitícola, elementos de expansão da área plantada e produção vitícola, evidenciando o processo de consolidação da região como importante polo do vinho brasileiro. Os sistemas de produção vitícola são analisados em detalhe, demonstrando como práticas adaptadas às condições locais contribuíram para elevar a qualidade das uvas e, consequentemente, dos vinhos.

Os capítulos mostram que, a partir da década de 1970 e, sobretudo, nos anos 2000, houve um avanço significativo na adoção de tecnologias e na organização produtiva.


O produto: identidade e qualidade dos vinhos


A terceira parte da publicação aprofunda o conhecimento sobre os vinhos da Campanha Gaúcha, a partir de análises químicas e sensoriais. Os estudos evidenciam a originalidade e a qualidade intrínseca dos vinhos produzidos na região, destacando características que conferem identidade própria aos produtos da região.

Ao integrar dados laboratoriais com avaliações sensoriais, os capítulos demonstram que os vinhos da Campanha Gaúcha expressam, de forma consistente, atributos associados ao seu território de origem, contribuindo para a consolidação de um território vitivinícola reconhecido, com vinhos que expressam identidade própria e crescente competitividade no mercado.


Requisitos técnicos de produção e governança: garantindo a autenticidade


Na quarta parte, o livro aborda os aspectos normativos e institucionais que sustentam a Indicação Geográfica. São apresentados o Caderno de Especificações Técnicas e o sistema de controle, instrumentos construídos de forma participativa entre pesquisadores e produtores. O Conselho Regulador da Vinhos da Campanha Gaúcha é o órgão responsável pela gestão, que inclui o controle, a promoção e proteção da IG.

Esses mecanismos estabelecem os critérios de produção exclusivos para a região, incluindo a produção vitícola, elaboração e qualificação dos vinhos, garantindo que apenas produtos que atendam aos requisitos de qualidade possam utilizar o selo da Indicação de Procedência Campanha Gaúcha. A construção desse sistema foi resultado direto do trabalho conjunto entre a Embrapa e parceiros, incluindo os produtores liderados através da associação Vinhos da Campanha Gaúcha, assegurando aderência à realidade produtiva, credibilidade e transparência ao processo.


Imagem e identidade: o território como ativo estratégico


Encerrando a obra, a quinta parte trata da dimensão simbólica e estratégica da Indicação Geográfica. Os capítulos exploram as paisagens vitícolas da Campanha Gaúcha e o processo de construção do reconhecimento da região como centro produtor de vinhos finos de qualidade.



Outras publicações da Campanha (colocar as capas):

Lançado em 2021, a publicação Vinhos finos da região da Campanha gaúcha: tecnologias para a vitivinicultura e para a estruturação de Indicação Geográfica, marcou o encerramento do projeto no qual foram geradas informações técnicas que possibilitaram a outorga da Indicação de Procedência Campanha Gaúcha (IP Campanha Gaúcha).


 


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