Por Eduardo Rocha Bravim, especialista em biotecnologia farmacêutica, instrumentação analítica, controle de qualidade e supply chain científico com atuação internacional
O Brasil ocupa uma posição curiosa no setor farmacêutico global, pois está entre os maiores mercados consumidores do mundo, mas ainda distante dos países que lideram a inovação e o desenvolvimento de novas terapias. Esse contraste expõe uma questão central: até que ponto o país pode ser considerado uma possível potência, já que segue dependente de avanços produzidos no exterior?
O crescimento da demanda interna, impulsionado por fatores demográficos e pela ampliação do acesso à saúde, consolidou o Brasil como um mercado relevante. No entanto, esse protagonismo está muito mais ligado ao consumo do que à capacidade de inovar. Em etapas críticas da cadeia produtiva, especialmente na produção de insumos e no domínio de tecnologias estratégicas, a dependência externa ainda é significativa.
Isso não ocorre por falta de base científica, já que o país reúne centros de pesquisa qualificados e produz conhecimento de alto nível. O desafio está na transformação desse conhecimento em soluções competitivas. A conexão entre academia, indústria e capital ainda é limitada, o que dificulta a escalabilidade da inovação e reduz a presença brasileira nos mercados globais de maior valor agregado.
A regulação também desempenha um papel relevante nesse cenário. Embora frequentemente associada à lentidão, ela é, na prática, um dos pilares de credibilidade do setor. Quando combinada com maior previsibilidade e eficiência, pode se tornar uma vantagem estratégica, aumentando a confiança internacional e facilitando a inserção de empresas brasileiras em cadeias globais.
Diante desse contexto, mais do que reconhecer limitações, é necessário definir caminhos. Isso passa pela escolha de nichos estratégicos, pelo fortalecimento de parcerias internacionais e pelo investimento consistente em qualidade, tecnologia e infraestrutura produtiva. A busca por transferência de conhecimento e a aderência a padrões globais deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos básicos.
Afinal, o Brasil não parte do zero: os elementos para uma atuação mais relevante já estão presentes, mas ainda carecem de articulação e visão de longo prazo. Sem uma estratégia clara de inovação e autonomia tecnológica, o país tende a permanecer como um grande consumidor em um mercado dominado por poucos protagonistas.

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