Ossuário escrito

 


            *José Renato Nalini

            Todas as Academias sérias têm a sua “estante dos escritores”. É o espaço em que, cada cadeira, coleciona as obras de seus ocupantes. Quem acreditar que prossigam as pesquisas sérias sobre autores e sua produção, não precisará ser convencido da conveniência e oportunidade da preservação desse hábito.

            A Academia Brasileira de Letras possui obras e hemeroteca de todos os seus ocupantes, desde a fundação em 1897. Um dia, isso há quase um século, Humberto de Campos foi verificar como andava a sua Cadeira de número vinte, quanto à história de seus antecessores. É dele a expressão “ossuário mental”. Vasculhando o conteúdo da Caixa 20, encontrou cartas autógrafas de Joaquim Manuel de Macedo e recortes de jornais relativos ao seu centenário, celebrado em 1920. Em outra pasta, autógrafos de Salvador de Mendonça, inclusive cartas a Machado de Assis e a sua bibliografia completa, organizada amorosamente pelos filhos.

            Numa terceira, as cartas de inscrição de Emílio de Menezes, pedaços de jornais com sonetos seus ou com as notícias de sua morte. Do seu enterro e da trasladação dos seus ossos para o Paraná.

            Finalmente, a caixa do próprio Humberto de Campos. E ele, sem modéstia, afirma: “Era a mais volumosa. Autógrafos meus, rascunhos de pareceres lavrados na Academia, notícias de jornais entusiásticos, ataques violentos de outros, resto de tintureiro de amigos, borra de tinta de inimigos; - em suma, punhados de flores e braçadas de pedras, sob as quais tem corrido, vertiginoso e revolto, o rio da minha vida. Respeitei tudo, como coisa sagrada. E fechei a caixa, comovidamente, como a sombra de um morto que acaba de remexer os próprios ossos, no seu túmulo...”

            A melancolia reflete o combalido ânimo de Humberto de Campos, que já estava enfermo e viria a falecer em 1934.

            A Academia Paulista de Letras também possui a sua “estante de escritores”, denominação mais simpática do que “ossuário mental”. Ali estão as obras dos “imortais” que a ocupam desde 27 de novembro de 1909. Há estantes muito significativas, como a de Ives Gandra da Silva Martins, que acaba de ser super-celebrado pelos seus noventa anos e que produz de forma impressionante. Há outros acadêmicos que não “alimentam” a sua estante, deixando de oferecer exemplares de seus livros. E ali cabe de tudo: recortes, correspondência, reportagens em revistas, separatas. Fotografias, principalmente. Alguém, no futuro, vai querer encontrar a memória documentada da “Casa de Cultura por Excelência” do Largo do Arouche, expressão do próprio Ives. E precisará encontrar acervo suscetível de vir a se transformar em consistentes ensaios, livros, biografias e outras produções intelectuais.

 

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo. 

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