O rastro invisível do dinheiro: por que crimes com criptomoedas exigem cooperação global urgente



Por Bianca Branco é  Investigadora especializada em crimes financeiros e criptoativos

Imagine que um criminoso rouba milhões de reais e, ao invés de esconder o dinheiro embaixo do colchão, converte tudo em Bitcoin e envia para dezenas de carteiras digitais espalhadas pelo mundo em questão de segundos. Como rastrear esse dinheiro? Como provar o crime? Esse é o desafio que investigadores de segurança pública enfrentam todos os dias.

Criptoativos - como Bitcoin, Ethereum e stablecoins - são moedas digitais que funcionam sem a necessidade de um banco central ou instituição intermediária. As transações acontecem diretamente entre pessoas, registradas em um sistema chamado blockchain, que funciona como um livro contábil público e imutável: qualquer transação feita fica gravada para sempre. À primeira vista, isso parece o cenário perfeito para investigadores. Mas há um detalhe importante: embora todas as transações sejam públicas, as identidades por trás delas são ocultas. Em vez de um nome, você vê apenas um código como este: 0x4e9ce36e442e55ecd9025b9a6e0d88485d628a67.

Descobrir quem está por trás desse código é o trabalho do investigador especializado, e no mundo dos criptoativos, os criminosos usam algumas técnicas específicas para dificultar o rastreio, como:

  • Mixers (misturadores): funcionam como uma "lavanderia digital" - o criminoso coloca seus criptoativos junto com os de outras pessoas, embaralha tudo e recebe de volta a mesma quantidade, mas de origem aparentemente diferente;
  • Contas em exchanges sem verificação: algumas corretoras de criptomoedas, especialmente as menores e localizadas em países com pouca regulação, permitem que usuários operem sem comprovar identidade;
  • Transferências entre blockchains diferentes: o dinheiro "pula" de uma rede para outra várias vezes, como trocar reais por dólares, depois por euros, depois por ienes - só que tudo acontece em minutos;
  • Moedas de privacidade: algumas criptomoedas, como Monero, foram criadas especificamente para ocultar remetente, destinatário e valor da transação.

Apesar de toda essa sofisticação, a blockchain nunca mente. Cada transação deixa uma marca permanente, o trabalho do investigador é interpretar essas marcas. As principais técnicas utilizadas são:

  • Análise on-chain: usando ferramentas especializadas como Chainalysis, Arkham Intelligence, Crystall Intelligence e TRM Labs, o investigador consegue visualizar o caminho completo que o dinheiro percorreu, de onde saiu, por onde passou e aonde chegou;
  • OSINT (Inteligência de Fontes Abertas): cruzamento de informações públicas como redes sociais, registros de domínio de sites e dados vazados de exchanges para descobrir quem está por trás de uma carteira digital;
  • Análise de padrões: algoritmos de inteligência artificial identificam comportamentos suspeitos, como carteiras que recebem dinheiro de muitas fontes diferentes e transferem tudo para um único destino em poucos minutos - padrão clássico de lavagem.

A grande vantagem do investigador é que, diferente de crimes financeiros tradicionais, no blockchain o rastro nunca desaparece. Mesmo que o criminoso tenha realizado a transação há anos, ela ainda está lá, disponível para análise. Um criminoso no Brasil pode enviar criptoativos para uma carteira na Europa, que repassa para uma exchange na Ásia, que converte o valor em dólares depositados em uma conta nos Estados Unidos, tudo isso em menos de uma hora. Nenhum país consegue resolver isso sozinho. Por isso, organizações internacionais criaram regras específicas para esse tipo de crime:

  • O GAFI (Grupo de Ação Financeira Internacional) estabeleceu que corretoras de criptomoedas precisam identificar seus clientes e compartilhar informações em transferências suspeitas, regra conhecida como Travel Rule;
  • A Rede Egmont conecta as unidades de inteligência financeira de mais de 170 países para troca ágil de informações;
  • No Brasil, o COAF e o Banco Central regulamentam as exchanges e as obrigam a reportar movimentações suspeitas.

O maior problema é que enquanto uma transação cripto acontece em segundos, um pedido formal de cooperação entre países pode levar meses. Essa diferença de velocidade é uma das maiores vantagens que os criminosos ainda têm.

A próxima geração de investigação financeira já está sendo desenvolvida. Sistemas de inteligência artificial conseguem analisar milhões de transações simultaneamente e identificar padrões suspeitos antes mesmo que o crime seja concluído, algo impossível para um investigador humano fazendo isso manualmente. O desafio é garantir que esses sistemas sejam explicáveis: o investigador precisa conseguir mostrar ao juiz não apenas o resultado da análise, mas o raciocínio por trás dela. Afinal, uma condenação não pode se basear em "o computador disse que é culpado".

Muitas pessoas acreditam que criptoativos são ferramentas perfeitas para crimes. Na prática, é o contrário:  blockchain é o único sistema financeiro do mundo onde cada centavo movimentado fica registrado publicamente para sempre. Nenhum banco oferece isso. O que faz diferença é a capacidade técnica dos investigadores, a cooperação entre países e regulações claras que obriguem as corretoras a identificar seus usuários. Com esses três pilares funcionando, o dinheiro sujo no mundo cripto tem cada vez menos lugar para se esconder.

Bianca Branco é especialista em segurança pública, rastreio de criptoativos, lavagem de dinheiro e fundadora da plataforma Investigate X, dedicada à educação e pesquisa em investigação digital.


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