*José Renato Nalini
Academias congregam egos notáveis.
São pessoas que se destacaram principalmente na literatura, mas não só. Hoje,
aceita-se protagonistas de outras áreas, para premiar a fabulosa biodiversidade
do pensamento pátrio. Mas é comum que os “imortais” tenham melindres
resultantes de aguçadíssima sensibilidade. A disputa por espaço, por menção na
mídia, por mera citação em solenidades, chega a acabrunhar os mais frágeis.
Conta-se que Luís Murat, ou Luís Norton
Barreto Murat, (1861-1929), o fundador da cadeira 1 da Academia Brasileira de
Letras, ficou muito amuado quando leu uma nota no jornal “O Imparcial”, sobre
Vicente de Carvalho, Vicente Augusto de Carvalho, (1866-1924), santista que
chegou a ser magistrado e também foi poeta. É que nesse texto eram citados
vários poetas brasileiros e Murat não figurava.
Ressentido, procurou Coelho Neto, Henrique
Maximiano Coelho Neto, (1864-1934), para que este descobrisse quem era o autor
do artigo. Se fora Emílio de Meneses, ou Emílio Nunes Correia de Meneses (1866-1918),
de quem desconfiava, Murat não o receberia na Academia Brasileira de Letras.
Coelho Neto o tranquilizou, pois
sabia que Luís Murat vê, em tudo, no menor esquecimento, nessas pequenas
omissões, o propósito de magoá-lo, de hostilizá-lo, de diminuí-lo. Embora um
grande poeta, não assimilava que estava longe de ser popular. Seu nome não é o
primeiro que vem à lembrança a todo momento, principalmente, como dizia Coelho
Neto, “quando ele próprio se exila, se retrai, como um lobo, fugindo ao
convívio de todos que podem fazê-lo lembrado”. Isso era inexplicável em um
homem com o talento de Luís Murat. Era doentio.
Só que essa característica é atemporal. Ela existia há mais de um século e continua a existir. Talvez até mais exacerbada, porque as redes sociais – essa dependência igualmente patológica – faz com que alguns se vangloriem de conquistar milhões de seguidores. Milhões de seguidores, é certo. Mas quantos desses podem ser chamados “amigos”?
*José
Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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