Chernobyl, 40 anos: entenda o maior desastre nuclear da história e seus reflexos até hoje



Tragédia sem precedentes, causada por falhas humanas, expôs milhões de pessoas
à radiação e contribuiu para a dissolução da União Soviética


O próximo domingo, dia 26 de abril, marca o Dia Internacional em Memória do Desastre de Chernobyl, instituído pela ONU em 2016 para relembrar o maior desastre nuclear da história da humanidade, além de reforçar a conscientização sobre a segurança nuclear. Nessa data, em 1986, precisamente às 1h23min do horário local, explodiu o reator 4 da Central Nuclear Vladimir Ilyich Lenin, localizada a 3 km da cidade de Pripyat, na Ucrânia, parte da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) – liberando uma quantidade de radiação estimada em 400 vezes a da bomba atômica lançada sobre Hiroshima em 1945.
 


Foto: Reprodução.


Estima-se que duas pessoas morreram imediatamente na noite do acidente e cerca de 28 trabalhadores e bombeiros faleceram nas semanas seguintes. Ao longo das décadas, organismos internacionais projetaram milhares de mortes adicionais relacionadas à exposição. No total, cerca de 8,4 milhões de pessoas foram expostas à radiação em diferentes níveis, principalmente na Ucrânia, Belarus e Rússia, enquanto uma área de aproximadamente 150 mil km² foi contaminada diretamente pela radiação.
 

O QUE É A RADIAÇÃO E PORQUE É PERIGOSA?
 

Segundo o professor de física do Brazilian International School – BIS, de São Paulo (SP), Renato Shiotuqui, a radiação pode ser entendida, neste caso, como uma “energia invisível”, sob a forma de partículas ou ondas eletromagnéticas, que se desloca pelo espaço. Ela pode ocorrer naturalmente — como a radiação solar, em níveis baixos, à qual estamos expostos diariamente — ou ser gerada por processos artificiais, como em reatores nucleares e durante exames médicos de raio-x.
 

O problema ocorre quando há exposição a radiação por períodos prolongados ou em doses elevadas, como no acidente de Chernobyl. Quando essa energia atravessa o organismo, ela pode danificar o DNA, que é como um “manual de instruções” das células. Se esse manual é alterado, a célula pode parar de funcionar corretamente, morrer ou até se multiplicar de forma desordenada. “A radiação ionizante tem impacto microscópico nas células do corpo, atingindo estruturas fundamentais para o funcionamento do organismo”, explica Shiotuqui.
 

Durante um exame de radiografia comum, o corpo é exposto a uma dose muito baixa e controlada de radiação ionizante (0,1 mSv/milisievert), equivalente a alguns dias de exposição à radiação natural média, suficiente apenas para atravessar os tecidos e gerar a imagem médica. Nessa situação, o organismo consegue lidar bem com os possíveis danos celulares, ativando mecanismos naturais de reparo do DNA. “É uma exposição rápida e em níveis seguros, em que eventuais alterações nas células são corrigidas pelo próprio corpo, sem causar efeitos perceptíveis”, explica o professor do BIS.
 

Já com os primeiros bombeiros que atuaram no incêndio de Chernobyl, o cenário foi completamente diferente. Eles foram expostos a níveis altos de radiação (estimativas apontam de 4.000 a 16.000 mSv) em um curto intervalo de tempo, níveis extremamente elevados e potencialmente letais, sem proteção adequada, o que causou danos imediatos e severos ao organismo. “Nesse caso, a radiação foi tão intensa que destruiu rapidamente células essenciais, especialmente da medula óssea e do sistema digestivo, impedindo o corpo de se regenerar”, afirma o professor. Nesse cenário, as vítimas apresentaram a síndrome aguda da radiação em poucas horas, com náuseas, queimaduras e fraqueza extrema, evoluindo para falência múltipla de órgãos nos dias seguintes ao acidente.
 

Já em exposições prolongadas ou em doses menores, os efeitos podem surgir anos depois. O aumento do risco de câncer, especialmente de tireoide, é uma das consequências mais conhecidas, além de possíveis alterações genéticas. Por isso, acidentes nucleares têm impactos que podem ultrapassar gerações. “Mesmo quando a exposição não causa sintomas imediatos, o risco tende a aumentar com a dose acumulada ao longo do tempo, o que torna a radiação particularmente perigosa do ponto de vista da saúde pública”, acrescenta o professor.
 

COMO FUNCIONA UM REATOR NUCLEAR RBMK?
 

O reator que explodiu em Chernobyl era do tipo RBMK, um modelo desenvolvido na então União Soviética e utilizado tanto para geração de energia quanto, em alguns casos, para produção de material nuclear. A usina nuclear de Chernobyl possuía um conjunto de quatro reatores, e um deles explodiu durante o acidente. Segundo o professor de física do Colégio BIS, para entender o desastre, é importante imaginar o reator RBMK como uma enorme “máquina térmica” dentro de um prédio industrial.
 

No centro dessa estrutura há um grande cilindro de grafite, material sólido moderador de nêutrons, que ajuda a controlar a velocidade da reação nuclear - processo em que o núcleo de um átomo sofre uma transformação, se dividindo ou se unindo a outro núcleo, liberando assim uma grande quantidade de energia. Dentro do cilindro existem centenas de canais onde ficam as barras de combustível de urânio - elemento químico encontrado naturalmente na crosta terrestre, contendo átomos instáveis que se dividem durante a fissão nuclear, liberando energia.
 

Quando o reator está em operação, os átomos de urânio se dividem no processo de fissão, liberando calor de forma contínua. Esse calor aquece a água que circula pelos canais, transformando-a em vapor. O vapor, por sua vez, gira turbinas conectadas a geradores, produzindo eletricidade. “É como uma usina termelétrica, mas, em vez de queimar carvão ou gás, o calor vem da divisão de átomos”, explica Shiotuqui.
 

O controle dessa reação é feito por meio de barras de controle, geralmente compostas de materiais que absorvem nêutrons - partículas subatômicas localizadas no núcleo dos átomos, com carga elétrica neutra. Elas funcionam como um “freio”: quando inseridas no reator, diminuem a velocidade da reação; quando retiradas, permitem que ela se intensifique. No RBMK, esse controle exigia ajustes constantes e precisos por parte dos operadores. Além disso, a água, com atuação refrigerante e moderadora, tinha um papel duplo: ao mesmo tempo em que resfriava o sistema, também influenciava diretamente o comportamento da reação nuclear. “O problema é que esse tipo de reator podia se tornar instável em certas condições, especialmente quando operava em baixa potência, exigindo um controle muito cuidadoso”, acrescenta Shiotuqui.
 

Nos reatores nucleares modernos, o princípio básico continua sendo o mesmo, a fissão nuclear para gerar calor e produzir eletricidade, mas com sistemas de segurança muito mais avançados e automatizados, incluindo estruturas de contenção em aço e concreto, e sistemas passivos que funcionam mesmo sem energia elétrica ou intervenção humana. É um “coeficiente de radioatividade negativo”, ou seja, a própria física do sistema faz com que a reação diminua automaticamente em caso de anomalia. “Hoje em dia, os reatores são projetados para que, diante de qualquer falha, entrem automaticamente em um estado seguro, reduzindo a reação nuclear sem depender da ação de operadores, o que reduz muito o risco de acidentes como o de Chernobyl”, explica o professor Shiotuqui.
 

COMO ACONTECEU O ACIDENTE?
 

O acidente em Chernobyl ocorreu durante um teste de segurança que buscava verificar se, em caso de queda de energia, as turbinas ainda conseguiriam gerar eletricidade suficiente para manter os sistemas essenciais funcionando por alguns minutos. Para isso, na madrugada de 26 de abril de 1986, operadores do reator 4 reduziram a potência do equipamento a níveis muito baixos e desligaram diversos sistemas automáticos de segurança — uma decisão que contrariava os protocolos operacionais.
 

O professor de física da Escola Internacional de Alphaville – EIA, de Barueri (SP), Caio Salute, explica que essa redução de potência, combinada com as características do reator, tornou o sistema instável. Na tentativa de recuperar o nível de energia, os operadores retiraram grande parte das barras de controle, o que acelerou a reação nuclear de forma incontrolável. “O reator entrou em uma condição extremamente sensível, em que pequenas mudanças provocavam grandes aumentos de potência, algo difícil de controlar manualmente.”
 

Somado à instabilidade do sistema, a própria construção da usina apresentava vulnerabilidades críticas. Os materiais do reator não possuíam padrões de segurança elevados, destoando de outras tecnologias nucleares já existentes no mundo àquela época. Essa utilização de componentes de baixa qualidade e um design inerentemente perigoso, como o uso de moderadores de grafite inflamáveis, criaram um cenário onde as margens de erro eram praticamente inexistentes.
 

Além das falhas estruturais, o fator humano foi determinante para a catástrofe. O treinamento dos operadores era extremamente precário, especialmente se comparado aos padrões rigorosos da indústria atual. Hoje, no Brasil, um profissional leva cerca de 10 anos de experiência prática e teórica dentro da usina até estar apto a operar uma sala de controle. Em Chernobyl, esse treinamento ocorria em apenas alguns meses.
 

Essa formação acelerada tornava as equipes incapazes de solucionar problemas complexos ou de realizar tomadas de decisão rápidas sob pressão, resultando em uma sequência de erros fatais diante de um sistema que eles não compreendiam em sua totalidade.
 

Em poucos segundos, houve um aumento abrupto e descontrolado da potência — estimativas indicam que o nível chegou a ser dezenas de vezes superior ao normal. Esse pico fez com que a água de resfriamento se transformasse rapidamente em vapor, gerando uma enorme pressão interna. “Foi uma combinação de erro humano com falhas de projeto: o sistema não apenas saiu do controle, como não tinha barreiras suficientes para conter o desastre”, afirma o professor.
 

O resultado foram duas explosões que destruíram o reator e expuseram o núcleo à atmosfera. A primeira explosão foi causada pelo acúmulo de vapor dentro do reator. Com o aumento abrupto da potência, a água de resfriamento se transformou rapidamente em vapor, gerando uma pressão extrema nos canais internos. Essa pressão provocou uma explosão mecânica, rompendo a estrutura do reator e deslocando a tampa de concreto e aço, que pesava centenas de toneladas. “Foi uma explosão causada pela pressão interna, que destruiu a integridade do reator e abriu caminho para o que viria em seguida”, explica Salute.
 

Já a segunda explosão, que aconteceu logo depois, é associada a reações químicas e à liberação de hidrogênio e outros gases inflamáveis, possivelmente combinadas com a exposição do grafite a altas temperaturas. Essa explosão química ampliou a destruição e lançou grandes quantidades de material radioativo, como fragmentos de combustível nuclear e grafite, espalhando-se no ar com os ventos, diretamente na atmosfera. Como consequência, o núcleo do reator ficou exposto e começou a queimar a céu aberto, liberando radiação de forma contínua por dias, contaminando regiões a milhares de quilômetros de distância. “Essa segunda explosão foi decisiva para transformar um acidente grave em uma catástrofe ambiental de escala global”, acrescenta o professor da EIA.
 

A nuvem radioativa atravessou fronteiras, contaminou solos, rios e alimentos na Ucrânia, Belarus e Rússia, e foi detectada em diversos países da Europa. As autoridades soviéticas mobilizaram uma operação emergencial para tentar conter a liberação de radiação: helicópteros sobrevoaram o reator destruído despejando toneladas de materiais como areia, chumbo, argila e boro — este último usado para tentar absorver nêutrons e reduzir a reação nuclear.
 

Ao mesmo tempo, em uma corrida contra o tempo, equipes conhecidas como “liquidadores”, formadas por bombeiros, soldados e trabalhadores, atuaram diretamente no local para apagar incêndios, remover destroços altamente radioativos e evitar que o material nuclear atingisse o lençol freático – muitos deles sem serem alertados sobre o real perigo que corriam ao serem expostos à radiação durante os turnos de trabalho.
 

Nos meses seguintes, foi construída às pressas uma estrutura de concreto e aço conhecida como “sarcófago”, projetada para isolar o reator destruído e conter a radiação. Essa estrutura, no entanto, era provisória e apresentava falhas com o passar do tempo. Décadas depois, já no século XXI, foi erguida uma nova cobertura chamada Novo Confinamento Seguro — um gigantesco arco metálico de 110 metros de altura e 36 mil toneladas, que recobre o antigo sarcófago e foi projetado para conter a radiação por pelo menos 100 anos.
 

Mesmo com essas estruturas de contenção, a radiação não desapareceu completamente e ainda exige monitoramento constante na chamada zona de exclusão, que se estende por um raio de 30 km. “Isso acontece porque alguns elementos radioativos, resultado da fissão nuclear do urânio, permanecem ativos por muito tempo. O iodo-131, por exemplo, perde força em poucos dias, mas o césio-137 e o estrôncio-90 podem permanecer no ambiente por décadas, enquanto o plutônio pode levar milhares de anos para deixar de representar risco. Na prática, isso significa que solo, água e vegetação ainda podem estar contaminados, especialmente em áreas mais próximas ao reator”, acrescenta Salute.
 

Na opinião do professor da Escola Internacional de Alphaville, a combinação explosiva entre a falta de treinamento especializado, a ausência de protocolos de segurança rígidos e a demora das autoridades soviéticas em assumirem a gravidade do acidente, priorizando o segredo de Estado em detrimento da saúde pública, resultou no maior desastre nuclear da história, com impactos ambientais e humanos que ecoam até os dias de hoje.
 

O MUNDO PÓS-CHERNOBYL
 

O professor de história do colégio Progresso Bilíngue, de Campinas (SP), Leonardo Meliani Vellosolembra que o acidente em Chernobyl ocorreu em um momento de forte tensão global, em meio à Guerra Fria, período marcado pela rivalidade política, ideológica e militar entre a União Soviética e os Estados Unidos.
 

Nos primeiros dias após a explosão, o governo soviético demorou a reconhecer a gravidade do acidente, e o mundo só tomou conhecimento da dimensão do desastre quando níveis anormais de radiação foram detectados em outros países distantes geograficamente do local do acidente. “Além de adotar medidas emergenciais, como restrições ao consumo de alimentos contaminados e monitoramento ambiental, os governos europeus da época também pressionaram politicamente por mais transparência, algo incomum naquele contexto de disputa entre blocos”, afirma Velloso. “Chernobyl teve um efeito simbólico muito forte: mostrou que nem mesmo uma superpotência conseguia controlar totalmente os riscos de sua própria tecnologia”, acrescenta.
 

O episódio expôs fragilidades do modelo soviético justamente em um momento em que o país já enfrentava dificuldades econômicas e buscava implementar duas políticas do governo de Mikhail Gorbachev: a política “Glasnost”, com objetivo de modernizar o regime soviético tornando-o mais transparente e democrático, permitindo maior liberdade de expressão e reduzindo a censura; e a política “Perestroika”, que visava a abertura econômica para o mercado e capital estrangeiro, reduzindo o controle do estado.
 

Nos anos seguintes, o desgaste político e social se aprofundou, contribuindo para a dissolução da União Soviética em 1991. O bloco, criado em 1922, era formado por 15 nações independentes, governadas por um partido único, sob forte controle econômico e social do estado. Com a dissolução da URSS, o território soviético foi redividido. “Ao mesmo tempo, o acidente deixou um legado duradouro. Além das marcas ambientais e humanas, ajudou a redefinir o debate internacional sobre energia nuclear e cooperação entre países, alterando a dinâmica geopolítica e reforçando a necessidade de colaboração internacional em temas que ultrapassam fronteiras”, conclui o professor.
 

No período pós-soviético, a gestão das consequências de Chernobyl passou a ser compartilhada entre Ucrânia, Bielorrússia e Rússia, cada nação responsável por monitoramento ambiental, descontaminação local e assistência às populações afetadas dentro de seu território. A Ucrânia, onde está localizada a usina, assumiu a responsabilidade direta pela área, com apoio financeiro e técnico de instituições globais. Estima-se que, desde 1986, o custo total para contenção, monitoramento e apoio às vítimas ultrapasse US$ 235 bilhões, com despesas anuais entre US$ 2 e 3 bilhões por ano para manutenção da segurança, controle radiológico e programas de mitigação ambiental.
 

Os especialistas
 

Caio de Oliveira Salutte é professor de Física e mestre em Física Nuclear. É apaixonado por ciência, educação e jogos de tabuleiro. Busca tornar o ensino de Física mais acessível, envolvente e próximo da realidade dos alunos. Acredita que a curiosidade é fundamental para a aprendizagem e utiliza métodos que estimulam o pensamento crítico e a participação ativa em sala de aula. Comprometido com a formação de estudantes curiosos e criativos, valoriza o intercâmbio de ideias e o prazer de aprender.

Leonardo Meliani Velloso é bacharel, licenciado e mestre em História pela Universidade Estadual de Campinas. Sua dissertação de Mestrado, intitulada Um Maravilhoso Imaginário, foi publicada como livro em 2017. Atua com ensino de História e preparação para vestibulares há mais de dez anos. É parte da equipe do colégio Progresso Bilíngue desde 2019.
 

Renato Shiotuqui é licenciado em matemática pela Faculdade de Guarulhos. Atua como professor de física e matemática, acumulando mais de 29 anos de experiência lecionando em escolas da rede privada e cursos pré-vestibulares.
 



Sobre a ISP – International Schools Partnership

Comentários