*José Renato Nalini
O mecenato é a estratégia espontânea
e desinteressada de financiar artistas, obras que merecem preservação, causas
nobres, que não seriam viáveis não fora o aporte de recursos por parte de quem
pode contribuir. Essa prática surgiu na Roma Antiga e o verbete se deve a Caio
Mecenas, que sustentava artistas em sua época.
Como tudo o que é bom, não são
abundantes os exemplos de mecenato no Brasil. Minha modesta experiência viu o
que Dulce e Victor Geraldo Simonsen fizeram pelas artes plásticas e pela
música. Também testemunhou a contribuição de Antonio Ermírio de Moraes para a
digitalização da Biblioteca da Academia Paulista de Letras. Roberto Duailibi,
penso que foi o último Mecenas da Casa de Cultura por excelência de São Paulo,
o Silogeu do Largo do Arouche. Patrocinou a renovação das baixelas, a
publicação de edições especiais, cuidou dos distintivos da rosácea, para nós a
desempenhar o papel do “fardão” da ABL.
Já não se fala tanto que em 29 de
junho de 1917 faleceu o livreiro Francisco Alves, que deixou a sua fortuna,
avaliada em alguns milhões, à Academia Brasileira de Letras. Algo que seus
contemporâneos não entenderam bem. Para alguns acadêmicos, era um tipo curioso
de usuário. Na tarde do enterro, Coelho Neto contou que, todos os anos, pelo
Natal, o Alves lhe enviava “um conto de réis” e outro conto a Olavo Bilac. Era
uma retribuição pelo sucesso dos “Contos Pátrios” que ambos escreveram em
parceria.
Essa obra tem história interessante.
Olavo Bilac foi perseguido por Floriano Peixoto e precisou de dinheiro para
fugir. Empenhou todas as joias de sua mãe. Ao regressar ao Rio, teve notícia de
que esse acervo de família ia ser vendido em leilão. Pediu a Coelho Neto o
auxiliasse naquela emergência. Este foi a Francisco Alves e ofereceu-lhe um
romance e um livro de contos escolares, à escolha, desde que ele arrematasse as
joias. O livreiro preferiu o livro de contos e Coelho Neto pediu um
adiantamento, entregando-o a Bilac.
Foi o que permitiu a Olavo Bilac
reaver a preciosidade afetiva. Aquilo que sua mãe usava, era mais valioso do
que o seu preço. Como não tinham livro pronto, ficaram ambos, dia e noite,
escrevendo os “Contos Pátrios”, que entregaram no prazo convencionado ao
livreiro.
Este conseguiu, com as várias
reedições, publicar mais de cem mil exemplares. Era natural, portanto, para
Coelho Neto, a “generosidade” do conto de réis a cada Natal, para ambos os
coautores dessa obra tão lucrativa.
*José
Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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