*José Renato Nalini
Academia com “A” maiúsculo é aquela
em que estigmatiza o eleito com a marca irremovível da imortalidade. É algo que
o acompanha enquanto viver. Só “academias” têm a categoria de “ex-acadêmico
vivo”. É uma verdadeira heresia.
Como é ridículo que alguém que
aceite ser empossado na Cadeira de alguém vivo ou faça o elogio do morto-vivo
ou o esqueça. Seja qual for a escolha, estará laborando em ridículo.
Essa ideia da imortalidade perene
não é nova. Chegou a ser discutida no âmbito da Academia Brasileira de Letras,
que é o modelo para todas as demais experiências acadêmicas tupiniquins.
Olavo Bilac foi um dos desgostosos
com a Academia. Manifestava esse desgosto em uma roda de amigos, em qualquer
lugar que fosse. Geralmente em bares. Alguém lhe aconselhou pedisse demissão.
- “É inútil: o acadêmico, uma vez
empossado, pode demitir-se, atacar a Academia, dar o fardão aos criados; não
adianta nada; só perde essa condição quando morre!”.
E acrescentou:
- “Três classes de indivíduos estão
sujeitos a essa fatalidade: o acadêmico, o padre e o filho natural. O padre
pode deixar a batina, casar-se no civil, romper com a religião; para a Igreja
continuará sendo sempre o padre, que ela jamais casará. O acadêmico pode fazer
como o Clóvis Bevilaqua, que nunca mais quis ouvir falar da Academia; mas só
será substituído por morte. É como o filho natural”.
Clóvis Beviláqua ficou ressentido
quando a ABL não aceitou a inscrição de sua mulher, Amélia Beviláqua. Desde
então, nunca mais compareceu à Academia.
Àquela época, valia o que Bilac
afirmava: “O filho natural, a mãe pode se casar com o pai. Este pode
perfilhá-lo. Mas continuará a ser filho natural!”
Duas dessas situações foram
alteradas no decorrer do tempo. Hoje, o Padre já pode se casar, inclusive fruir
do sacramento do matrimônio, embora já tivesse se ordenado. Também já não
existe a condição de filho natural. É uma questão humanitária. Todos os filhos
são simplesmente filhos. Mas ex-acadêmico persiste em não existir. É incrível
que pessoas presumivelmente cultas e inteligentes aceitem conviver com esse
ridículo.
*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo

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