Campanha da Fraternidade 2026: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14)




* Padre Marcio Prado


A cada ano, a Igreja no Brasil nos motiva, com a Campanha da Fraternidade, a olhar, pensar e agir em alguma realidade social de nosso país. Afinal, a evangelização também se concretiza no envolvimento prático com o cotidiano da sociedade. Não devemos ser alheios aos desafios que nos afetam, pois, tudo o que a sociedade vive, de alguma maneira também nos atinge. Que tal, como cristãos, como Igreja, sermos presença de Cristo neste mundo?


Um dia acolhemos Jesus em nosso coração, Ele nos amou, veio morar em nossas vidas e, quantas mudanças ocorreram? Passamos a nos preocupar com nossa família, amigos e com aqueles que encontrávamos ou aos quais íamos ao encontro. Nesse sentido, permitamos mais uma vez que sejamos impactados pelo amor de Deus e olhemos para a necessidade do outro. 


Neste ano, temos o tema da “moradia”, um direito básico segundo a Constituição Brasileira, porém muito aquém do ideal. O “real” parece absurdo e inacreditável, pois embora nosso Brasil seja riquíssimo em história, tradição, terras, cultura e em fé - somos a “Terra de Santa Cruz” -, milhões de pessoas carecem de moradia, de uma habitação digna. Há necessidade de gestões que favoreçam o direito à moradia, com sensibilidade humana para ver o outro como irmão.


A Campanha da Fraternidade, com o lema “Ele veio morar entre nós” é um convite à conversão do coração e da mentalidade. A problemática da moradia foi vivida até pela Sagrada Família. Lembremos quando a família de Nazaré foi à sua terra e não encontrou lugar para hospedagem (Lc 2,7). No entanto, Jesus veio morar entre nós. Na verdade, o que falta ainda em nossos dias é uma conversão profunda de todos nós. Falta a acolhida de Cristo com tudo aquilo que Ele ensinou.


O Senhor continua a “bater à porta” dos corações, quem acolhe Cristo não se fecha para o outro, não se fecha para os desafios do mundo. O apelo que a Igreja nos faz é para acolhermos Jesus, pois quem se abre a Cristo ama, perdoa, partilha, reparte, reconcilia e é justo. 


Se o homem se abre a Cristo ele se abre aos demais seres humanos. O que Jesus mais fez foi ensinar, curar e libertar. Sim, quando o Senhor fez o que fez, em outras palavras, Ele deu dignidade a cada ser humano que encontrou, isso é ou não é atual? 


É verdade que existem iniciativas em diferentes esferas que contribuem para amenizar essa realidade. Ainda assim, os dados sociais são alarmantes e revelam desafios significativos: faltam cerca de 6 milhões de casas no país; aproximadamente 26 milhões de pessoas vivem em moradias que necessitam de melhorias; cerca de 55 milhões não têm acesso ao saneamento básico; e aproximadamente 300 mil pessoas encontram-se em situação de rua, evidenciando a necessidade de um olhar contínuo e atento para essa realidade.


A Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja apontam para soluções: “Jesus veio morar entre nós”, e o apelo do Evangelho é: “Ele ainda busca morada” em cada pequenino deste mundo. Em todos aqueles que Ele fez morada, desde os primórdios até hoje, tantos santos e santas, estes entenderam e tiveram iniciativas de acolhida. 


No livro dos Atos dos Apóstolos, narra-se o “efeito Jesus” na vida da Igreja Primitiva: “não havia necessitados entre eles… partilhavam seus bens” (Cf. At 4,34-35). Quando surgiu a necessidade de amparar as viúvas por conta de uma situação de injustiça, a Igreja elegeu diáconos para realizar tal assistência. O que fizeram São Vicente de Paulo, Dom Bosco e Santa Teresa de Calcutá ao se depararem com Cristo? Criaram inúmeras obras de evangelização e caridade.


O Evangelho é atual, a Doutrina Social da Igreja, o que a Igreja no Brasil propõe oferece caminhos de justiça e caridade. Que juntos, Igreja e poder público, você e eu, ao acolhermos o Cristo “que já mora em nós” e Seus ensinamentos, possamos dar passos para amar o próximo, preocupar-nos uns com os outros e promover a partilha e a justiça. E cá entre nós, cristãos: nosso maior ato de justiça é ofertar Jesus para as pessoas, pois com Ele tudo muda, tudo melhora!


*Padre Marcio Prado é sacerdote da Comunidade Canção Nova, autor dos livros: “Entender e viver o Ano da Misericórdia” e “Via-sacra do Santuário do Pai das Misericórdias”, pela editora Canção Nova. Instagram: @padremarciocn

Comentários