*José Renato Nalini
A verdadeira História é aquela que
foi vivenciada por seres nem sempre célebres ou famosos. Mas por pessoas que,
às vezes de forma anônima, deixaram sinais indeléveis no coração dos que
conviveram com elas.
Registrar essas existências que
muitas vezes ficam olvidadas é um direito dos pósteros e um dever para com a
História. Além de tudo, faz bem para a alma. Quem se propõe a eternizar, por
escrito ou visualmente, vidas de antepassados, resgata dívidas afetivas e
recobra inspiração para continuar empreitadas que talvez tenham sido
interrompidas. É algo que aprimora o equilíbrio psicológico, muito importante
numa era em que as anomalias mentais assustam médicos, filósofos, educadores e
todas as pessoas sensíveis.
Um exemplo disso e que merece
leitura é o livro “Meus Mortos – Um Autorretrato”, para aliviar suas perdas:
morreram pai, mãe e irmão no espaço de oito meses, entre 2020 e 2021. Foram
vítimas da pandemia e do obscurantismo que interceptou a produção de vacinas.
Para Mainardi, o livro nasceu de uma
necessidade intelectual, não apenas emocional ou psicológica. Quis dar sentido
à dor e aos lutos. Para aliviar seu luto pessoal, ele se mostra fascinado por
retratos póstumos de épocas antigas. Como o do Imperador Carlos V, que morre
dentro de um quadro, ou seja, morre olhando a própria imagem dentro de um
quadro de Ticiano, pintor muito presente em Veneza, onde Diego Mainardi reside
agora. O autor explora a obra de um discípulo de Ticiano, o artista Van Dyck,
um elo entre o italiano e a temática da morte. O belga pintou um “cadáver
fresco” da mulher de um amigo. Ela estava morta havia dois dias, quando seu
marido aristocrata encomendou um retrato dela ao amigo Van Dyck.
Que sirva de inspiração para que
outras vidas deixem de ser consideradas despercebidas, mas possam servir de
orientação para algumas que encontram dificuldade para descobrir o verdadeiro
sentido, que as qualifique e enobreça.
Animemo-nos e escrevamos. É possível
publicar até um exemplar só, de acordo com a tática “on demand”. O que importa
é escrever.
*José
Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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