Reconhecer marcas do passado de rios e riachos é essencial para planejar conservação, aponta pesquisa desenvolvida na Unesp
Estudo mostra que alterações no uso da terra geram impactos em corpos d'água só compreendidos anos depois; conhecer a história é essencial para restaurar a biodiversidade
O docente Tadeu Siqueira em trabalho de campo / Acervo pessoal
A água doce, essencial à existência da vida na Terra, cobre menos de 1% da superfície do planeta. Mesmo assim, rios, riachos, lagos e pântanos servem como lar para cerca de 10% de todas as espécies animais. Nesses ambientes, os insetos aquáticos estão entre as estrelas principais, com mais de 200 mil espécies conhecidas. Seu predomínio é tão grande que, segundo algumas estimativas, esses pequenos animais responderiam por cerca de 80% da diversidade de animais aquáticos.
Para além de sua importância ecológica, os insetos aquáticos têm sido cada vez mais valorizados como bioindicadores. Sua presença – ou ausência – é um recurso que pode ser empregado para determinar o estado de saúde dos mais diversos cursos d’água.
“Como há uma diversidade muito grande de insetos, existem aqueles que são mais tolerantes às condições adversas e aqueles que são mais sensíveis”, explica Tadeu Siqueira, docente do Instituto de Biociências da Unesp, câmpus de Rio Claro, e um dos Pesquisadores Principais do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima – CBioClima. “Nosso conhecimento dessa variedade permitiu-nos criar métricas de sensibilidade para entendermos as mudanças ambientais nos ecossistemas aquáticos”, diz.
Desde a época de sua graduação, Siqueira se dedica a estudar a ecologia dos ecossistemas aquáticos de água doce, tendo os insetos como um dos tópicos recorrentes em suas investigações. Em uma pesquisa recente, o biólogo juntou-se a uma equipe de pesquisa que tinha como objetivo entender como o passado de uma região influencia, e até mesmo molda, os padrões de diversidade de rios e riachos tropicais no presente.
O artigo “The ecological memory of landscape complexity shapes diversity of freshwater communities”, que relata os resultados do estudo, apresenta uma análise das mudanças que aconteceram ao longo de 30 anos nas paisagens da bacia do Corumbataí, em São Paulo. A bacia é imensa, abrangendo 101 riachos.
Um dos principais objetivos da pesquisa foi identificar de que modo as alterações no uso do solo impactam esses cursos d’água e resultam em uma espécie de memória ecológica, que eventualmente pode ser recuperada. Para isso, o grupo realizou a coleta, identificação e análise de insetos aquáticos já reconhecidos como bioindicadores a fim de avaliar a saúde ambiental e a qualidade dos ecossistemas estudados.
A principal contribuição do trabalho foi o desenvolvimento de um novo método estatístico que permitiu identificar quando exatamente, no passado, as mudanças na paisagem foram mais críticas para a biodiversidade.
O artigo também apresentou um resultado inesperado para a área: a composição do uso da terra, ou seja, a quantidade de diferentes tipos de cobertura presentes, exerce uma influência maior sobre a biodiversidade dos cursos d’água do que a localização dessas diferentes coberturas no espaço. Em outras palavras: a extensão total da área ocupada por uma plantação de cana, ou por uma floresta, exerce maior impacto sobre a saúde de rios e riachos do que o local onde essas plantações ou florestas estão situadas, como, por exemplo, próximo à cabeceira dos rios ou às suas margens.

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