*José Renato Nalini
Nas Academias, chamamo-nos
“confreiras” e “confrades”. Ou seja: devemos nos portar como irmãos. Mas a
espécie humana é bizarra. Ressalvado o verniz de polidez obrigatório entre
pessoas eruditas e presumivelmente civilizadas, aflora nos múltiplos espíritos
que ali convivem, aquelas fissuras das quais ninguém está liberto.
Assim foi na Academia Brasileira de
Letras, criada em 1897 por Machado de Assis e seus amigos. Humberto de Campos,
um dos mais sarcásticos integrantes da ABL, era muito crítico em relação a
vários de seus “confrades”. Extraio do seu delicioso “Diário Secreto”, algumas
pílulas que ele fez questão de deixar registradas.
Por exemplo: menciona que em artigo
publicado no mensário “ABC”, Lima Barreto diz que Lauro Müller, para conseguir
um livro que justificasse a sua entrada para a Academia, teve que imprimir um
discurso em papelão e em letras garrafais. Só assim arranjou ele um volume,
como exigem os estatutos da instituição.
Mais adiante, atribui a João Ribeiro
uma veemente crítica a Rui Barbosa, a quem acusa de vaidoso. Vaidade que o
fazia abusar da paciência dos outros, seja quando escrevia, fosse quando
falasse.
“O Rui não tem a noção do tempo e
supõe que os outros não a têm também. Depois, comete uma incivilidade, detendo
os que o ouvem nos teatros ou no Senado, quando esses podem ter ocupações e
interesses urgentes no decorrer das quatro ou cinco horas e que ele os retém”.
Quando João Ribeiro foi alertado,
por Humberto de Campos, que Rui havia brilhado na Conferência de Haia, o que
lhe reservou o título honorário de “Águia de Haia”, a resposta de João Ribeiro
foi: - “Foi um sucesso... mas só para uso no Brasil. Na Europa, a impressão que
deixou e que eu ainda ali encontrei, foi a de um orador “cacetíssimo”, que
supunha a Conferência especialmente convocada para ele e que não foi, além de
tudo, entendido convenientemente, por ter uma dicção francesa defeituosa”.
Se entre “confrades” esse é o tom, o
que esperar do convívio entre não letrados, no Brasil em que existem milhões de
analfabetos e outros milhões de “analfabetos funcionais”?
*José
Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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