Nunca vi uma campanha dentro das universidades pela reforma da educação de base, critica Cristovam Buarque


Em palestra promovida pelo Núcleo de Estudos Avançados da Unesp, em SP, ex-ministro da educação criticou a pretensão de expandir o ensino superior no Brasil antes que o ensino básico seja, de fato, capaz de formar pessoas aptas a cursar uma graduação



Bruno Vaiano / ACI Unesp 

Na manhã da última quarta (26), o auditório da Biblioteca Mário de Andrade, no centro da capital paulista, recebeu a mais recente apresentação do Ciclo de Palestras e Debates organizado pelo Núcleo de Estudos Avançados (NEAv) da Unesp. Intitulada “A universidade é o atalho para reunir democracia e humanismo”, a palestra foi proferida por Cristovam Buarque, que, além de primeiro reitor eleito democraticamente na Universidade de Brasília (UnB), ocupou os cargos de governador e senador do Distrito Federal e encabeçou o Ministério da Educação durante o primeiro mandato do presidente Lula (2003–2006).

O NEAv nasceu em agosto deste ano como uma iniciativa independente das demais atividades de pesquisa da Unesp. No núcleo, o trabalho se organiza nas chamadas cátedras, grupos com duração de um ou dois anos nos quais pesquisadores de diferentes áreas se debruçam sobre tópicos contemporâneos adotando uma abordagem interdisciplinar.

A primeira cátedra estabelecida investiga o desinteresse dos jovens pelo ensino superior. Esse desinteresse se materializa nas altas taxas de evasão: 55,5% dos matriculados, no Brasil, desistem de suas graduações antes de terminá-las. “O jovem não sabe qual profissão irá exercer após concluir a faculdade. Talvez seja uma profissão que ainda nem existe”, diz Eduardo Colombari, professor da Faculdade de Odontologia do câmpus de Araraquara e primeiro coordenador do NEAv. “É preciso que a universidade esteja no ritmo dessas mudanças e entendendo o seu público para alcançar o melhor aproveitamento”, diz.

Durante o evento, Cristovam Buarque criticou a pretensão de expandir o ensino superior no Brasil antes que o ensino básico seja, de fato, capaz de formar pessoas aptas a cursar uma graduação. “Em 40 anos de democracia, o Brasil multiplicou por cinco o número de universitários. Mas só multiplicou por 2,5 o número dos que terminam o ensino médio. E o que se multiplicou foi só a quantidade de formados, não a qualidade. A qualidade não melhorou tanto”, afirmou o ex-ministro.

De acordo com Buarque, a expansão do ensino superior brasileiro nas últimas décadas evitou convenientemente a discussão sobre o ensino básico, como se os diplomas de graduação fossem suficientes para compensar as lacunas deixadas por colégios públicos deficientes. Um cidadão não precisa, necessariamente, do ensino superior para ter uma carreira e uma vida plenas —há muitos caminhos profissionais bem-sucedidos que não passam pela universidade. Porém, dominar o conteúdo dos níveis fundamental e médio é imprescindível para que todos os cidadãos saiam do mesmo ponto de partida na vida adulta. Hoje, naturalmente, não é assim.

“Há décadas que se faz mobilização pela reforma agrária dentro das universidades. Mas nunca vi movimentação pela reforma da educação de base. Nunca vi uma campanha dentro das universidades pela eliminação do analfabetismo. Nós nos comportamos como se a educação começasse no dia seguinte ao vestibular, para quem passou.”

O Ciclo de Palestras sobre o ensino superior é a primeira iniciativa do NEAv aberta ao público. Outros seis palestrantes já participaram do ciclo via videoconferência. As falas — que trataram do futuro e dos dilemas do ensino superior de diferentes pontos de vista — ficaram registradas no canal oficial da Unesp no YouTube (acesse aqui). As datas das palestras futuras estão listadas no site oficial do NEAv.

Leia a reportagem completa no Jornal da Unesp.

Comentários