O amadurecimento
crescente de um povo, que está descobrindo os seus direitos de cidadão, ainda
que tardiamente, porquanto tanto tempo após a Revolução Francesa (1789), o fará
finalmente concluir que nenhum país pode na verdade desenvolver seus talentos
se continuar subsistindo como uma grande senzala de senhores e escravos, ou
fechar-se como uma ostra xenófoba ou abrir-se de forma temerária, a ponto de
perder sua identidade, sua soberania.
A compreensão das massas
ir-se-á maturando até que entendam o valor da cidadania, no sentido lato, pois
não é bastante considerar o cidadão apenas no seu contexto físico, mas também
no espiritual, porque qualquer
componente dos grupos humanos é, em resumo, formado por corpo e Alma. Afinal somos na origem Espírito.
Eis o sentido completo de cidadania, que não pode admitir tão somente o
analfabetismo das letras humanas, como também a ignorância dos assuntos
espirituais.
O desconhecimento desta
realidade sobre a qual acabamos de discorrer favorece a incrementação das ações
causadoras da fome, do desemprego, do sectarismo, do frio ideal individualista,
isto é, ególatra, a promoção do escárnio com os que sofrem na sociedade, porque
riqueza e pobreza situam-se dentro do ser humano; exteriorizá-las, ou não,
depende da mentalidade e de fatores culturais (no futuro próximo, marcadamente
espirituais), que precisam ser exercitados. Esta é uma situação que não afeta
apenas o Brasil, é mundial: durante gerações foi-se oferecendo à grande parte
das crianças e dos jovens pouco mais que lixo. Depois, há quem se surpreenda
com o resultado obtido por tão funesta sementeira, a cultura do crime (que se
compraz no conflito entre povos, ou mesmo dentro das famílias e das nações,
verdadeiras guerras civis não declaradas), da qual a mocidade é a principal
vítima (como está no Apocalipse, 8), a causar outras tantas em todas as
classes. Não basta levantar o vidro do carro. É suicídio desviar a atenção do
fato. Nunca foi eficiente esconder a cabeça na areia, como o avestruz. (...)
Não é sem propósito
esta meditação de Bonaparte (1769-1821): “Cada hora perdida na juventude é uma possibilidade de infortúnio na
idade adulta”.
Ora, isto também se
aplica às nações que nascem, crescem, tornam-se maduras, quando colherão o que
houverem plantado nas fases anteriores ou, não, se não souberem, mais que
honrá-lo, sublimar seu patrimônio espiritual, social e humano. Eis o desafio a
ser vencido no campo da Educação: o de aliar à Instrução a Espiritualidade
Ecumênica. Nós, Legionários da Boa Vontade, temos plena certeza de que o
Evangelho e o Apocalipse oferecem uma estrutura espiritual, psíquica e ética
para que ocorra essa transmudação, cuja hora é chegada, mais que isso,
urgentíssima.
Daí ter discorrido, em
entrevista que concedi ao renomado jornalista Ibrahim Sued (1929-1995), sobre a Pedagogia inovadora que aplicamos na
Legião da Boa Vontade, alinhando a ética ao ensino para a formação do Cidadão
Ecumênico. Apresento, a seguir, trechos do que disse em resposta à arguição do
saudoso Ibrahim, à época:
Última entrevista com Ibrahim Sued
Ibrahim Sued — Sei que a Legião da Boa Vontade tem
uma linha pedagógica inovadora. Qual é a fórmula da LBV para resolver o
problema da Educação no Brasil?
Paiva Netto —
Antes de tudo, aplicar o nem sempre devidamente valorizado Amor, “o Divino Pão das Almas, o Alimento Sublime
dos Corações”, na definição de Laura, mãe do enfermeiro Lísias, personagens
do livro Nosso Lar, de autoria
do Dr. André Luiz, na psicografia de Chico Xavier.
Amor versus conivência
Ora, meu caro Ibrahim, o que mais se vê por aí é o resultado da carência dele. Nada mais pedagógico do que o Amor Fraterno, conquanto enérgico e justo. Naturalmente, o Amor não pode ser confundido com conivência no erro, pois existem aqueles que consideram que amar é concordar em tudo, mesmo no que estiver errado. Amar é justamente o contrário, mas, sabendo-se com generosidade corrigir a pessoa em sua falta, mesmo que com ponderado rigor. (...) Aristóteles (384-322 a.C.) advertia que “todos quantos têm meditado na arte de governar o gênero humano acabam por se convencer de que a sorte dos impérios depende da Educação da mocidade”. Mas onde começa a verdadeira Educação? (...) Na Pedagogia da Legião da Boa Vontade, que prega a Sociedade Solidária, visamos formar o Cidadão Ecumênico, ou seja, o ser humano que transcende a mera competência, visto que muita gente tida como tal está levando o mundo a uma situação de calamidade e perigo. O Cidadão Ecumênico é o cidadão solidário, portanto não egoísta. É aquele que não se deixa seduzir pelo fanatismo, porque entende que não faz sentido odiar em nome de Deus, que é Amor. Enfim, é o que sabe respeitar a sagrada criatura humana sem preconceitos e sectarismos. O que é ético não pode acovardar-se. Quando o território não é defendido pelos bons, os maus fazem “justa” a vitória da injustiça. (...) Na verdade, meu caro Ibrahim, o que a LBV propõe é um grande programa de Reeducação. E é o que vimos fazendo dentro de nossas possibilidades, procurando despertar o interesse de tanta gente idealista, que, como nós, não acredita na fatalidade de destinos condenados à desgraça, por questões sociais, políticas, religiosas, étnicas... Além disso, nada se constrói firmado em recalques. Essa ação permanente da LBV pela reeducação do povo muito impressionou o jornalista Gilberto Amaral, de Brasília, a ponto de ter declarado no Correio Braziliense: “A Legião da Boa Vontade dá uma clara e evidente demonstração ao país de como educar, principalmente os mais humildes” (...).
José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escritor.
paivanetto@lbv.org.br — www.boavontade.com

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