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sábado, 22 de julho de 2017

Ética: superação da cultura do isolamento e da indiferença

Pe. Valdair Aparecido Rodrigues
Administrador Paroquial Catedral de Jales

 
Todas as dimensões da sociedade são pautadas pelo ethos (de onde provém a palavra ética), ou seja, pelos princípios fundamentais, normas, orientações, leis que têm como intuito o sentido da vida. É preciso, portanto, adentrar no espírito da lei e não se prender à sua literalidade. A ética objetiva o respeito, a promoção, a conservação e a dignidade da vida.

Se em todas as dimensões sociais há um ethos específico, a religião também possui dimensão ética. O anseio religioso é ligar novamente (religare) o ser humano a Deus. A religião, com seus ritos, costumes e orientações que conduzem à espiritualidade, tem como finalidade o autoconhecimento, a redescoberta do próximo e da criação e a relação com o Transcendente. Sendo assim, podemos afirmar que toda teologia é uma antropologia ou vice-versa. Nossa imanência frágil, limitada e finita nos posiciona diante da transcendência com sua beleza, verdade e justiça. Enfim, toda religião objetiva promover e defender a vida, dom divino.

O meio nos determina, mas não somente. Podemos escolher quem somos e o que fazemos. Isso é fruto da nossa liberdade. Mas há a necessidade do discernimento e da sabedoria para não cairmos no relativismo (viver no mundo apenas a partir do nosso ponto de vista), no hedonismo (busca do prazer pelo prazer) ou no deontologismo (fazer pelo fazer).

A religião cristã, pautada na liberdade de escolha e na certeza de que a graça divina conduz o ser humano, propõe como dimensão ética o ágape, palavra que, em sentido mais amplo, significa comunhão e partilha de vida. Assim sendo, o ágape se traduz por amor fraterno e gratuito, sem busca de recompensas. É a realidade de implicar-se com o próximo contemplando seu rosto, escutando sua voz, seu grito por justiça. É deixar a dor do outro nos interpelar, nos convocar, conclamando-nos à caridade, à solidariedade e à cordialidade.

A vivência dessa comunhão expressa pelo ágape requer abertura, acolhida, pisar o chão do próximo. Requer escuta, diálogo, tolerância, paciência, percepção de que o mundo é plural, de que as pessoas são diferentes e até professam a fé de maneiras diferentes. Porém, nas diferenças, buscam o essencial: vida justa, fraterna e pacífica. E como Saint-Éxupery ressaltou: "O essencial é invisível para os olhos, só se vê bem com os olhos do coração".

No encontro de Jesus com a Samaritana (Jo 4, 1-30) percebemos a superação de preconceitos na prática do diálogo e, com isso, a descoberta do mistério humano-divino presente tanto em Jesus como na Samaritana. A consequência prática desse ágape vincula-se com a parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37). Em Jesus, Deus se humaniza e se inclina (kênose) para devolver ao ser humano aquilo que lhe pertence: a dignidade. O humano, encontrado e reumanizado pelo divino, é capaz de humanizar o mundo.

A revelação cristã apresenta Jesus se propondo, nunca se impondo. O papa Francisco é atualmente considerado um grande líder. Seu caminho também é o da proposição, assim como o da misericórdia. É admirado, inclusive, pelos irmãos que professam sua fé de maneiras diferentes. Isto porque, para ele, a cultura do encontro agápico leva à superação da cultura do isolamento e da indiferença. Em nosso país, vivemos desapontados com nossos líderes: esquecem-se do bem comum, buscam interesses pessoais. Destarte, a prática do ethos agápico é fundamento para a sua dignificação e também para a nossa.
 


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