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sábado, 27 de maio de 2017

Cultivo de uva para suco e vinho é avaliado em municípios paulistas

Jales é um importante polo vitícola da produção estadual


por Maristela Garmes


"O suco de uva puro de uva, considerado 100% integral, sem a utilização de aditivos químicos é encontrado apenas no Brasil", diz o professor Marco Antonio Tecchio, do Departamento de Horticultura da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA), da Unesp de Botucatu, que trabalha atualmente com um amplo projeto de pesquisa que avalia o comportamento do cultivo de uvas nas regiões de Botucatu, São Manuel, Jundiaí e Votuporanga.
foto/reprodução/ilustrativa  


Segundo o professor, "a avaliação do comportamento de cultivares de uvas para suco e vinho, desenvolvidas nestas regiões, é de extrema importância, pois fornecerá informações de grande interesse aos viticultores paulistas", diz. O projeto tem previsão para terminar em 2020.

As regiões de Jundiaí e Jales são importantes polos vitícolas, respondendo por 63% da produção estadual da uva Niagara Rosada. Segundo o professor, "em função da alta especulação imobiliária no polo vitícola da cidade e da queda na rentabilidade da Niagara Rosada pelos viticultores da região, umas das alternativas é a diversificação de cultivares e a elaboração de suco e vinho para à agregação de valor à uva".

Já em Votuporanga e Jales, a cultivar Itália é à base da viticultura na região, complementada por suas mutações Rubi, Benitaka, Brasil e Redimeire e, ainda, mais recentemente, pelo cultivo de uvas sem sementes BRS Vitoria e BRS Isis, lançadas pela Embrapa.

"O alto custo de produção decorrente da grande demanda de mão de obra e de insumos, associado aos baixos preços na comercialização, vêm ocasionando redução da área plantada das cultivares Itália e suas mutações, e a procura de alternativas para a região", diz o professor, ressaltando que a cultivares de uva para suco e vinho pode ser uma alternativa para o viticultor da região, tendo em vista a possibilidade de agregação de valor na uva.

Em Botucatu e São Manuel, apesar da reduzida área de plantio e de produção, equivalente a 0,32% da produção estadual, tem demanda crescente pelos produtores da região, sendo que o cultivo da videira é uma boa alternativa.

A pesquisa avalia cultivares tradicionalmente utilizada para a elaboração de vinhos ou sucos, como a Bordô, Isabel, Isabel precoce, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Syrah e Sauvignon Blanc, além das obtidas pelos programas de melhoramento genético do Instituto Agronômico de Campinas como IAC 138-22, Máximo, IAC 116-31 Rainha, IAC 21-14 Madalena, e da Embrapa: BRS Violeta, BRS Carmem, BRS Lorena e BRS Cora.

Ciclos da videira - No início de cada ciclo de produção, a videira necessita ser podada no final do inverno, sendo que, nas regiões em estudo, a poda foi realizada em agosto, depois do período de dormências das videiras.

Logo após a poda, foram avaliadas, semanalmente, as diferentes fases do ciclo da videira (estádios fenológicos), tendo por finalidade auxiliar o viticultor no manejo das técnicas culturais. Neste mesmo período, os pesquisadores também analisaram a duração do ciclo das cultivares, sendo de grande importância para a determinação da época da colheita.

"Os estádios fenológicos podem ser úteis para determinar o adequado momento e o número de operações para as diversas práticas culturais, como a aplicação de fertilizantes, poda, aplicação de reguladores vegetais e agroquímicos, desbaste e colheita", diz.

Na colheita, a equipe investigou os aspectos produtivos e de qualidade da uva, como produtividade e dimensões de cachos e de bagas de uva. Após esta etapa, foi analisada a qualidade da uva: ponto em que elas são esmagadas e com o suco obtido são determinadas a acidez titulável; o teor de sólidos solúveis; o pH e os açúcares redutores. O professor ressalta que o teor de sólidos solúveis, de maneira geral, está relacionado à quantidade açúcares nas uvas.

"Estes parâmetros são de extrema importância para determinar as características da uva para elaboração de suco ou vinho de qualidade", diz. As uvas ainda são classificadas quanto aos teores de polifenóis totais, flavonoides totais, antocianinas, resveratrol e atividade antioxidante".

Uma das questões apontadas pelo professor, é a importância destes compostos para a saúde humana. "Trabalhos na literatura demonstram alguns benefícios no consumo de suco de uva como: redução do risco de coágulos no sangue; efeitos anti-inflamatório, melhoria cognitiva e da memória, manutenção do colesterol à níveis saudáveis, menor risco de doença de Alzheimer, redução dos efeitos do envelhecimento, entre outros resultados".

Resultados - Entre alguns dos resultados já apresentados pela pesquisa, o professor Tecchio conta que em Votuporanga houve poucas variações na produtividade das videiras ao longo dos anos de cultivo: as cultivares Isabel Precoce, BRS Cora e IAC 138-22 Máximo têm se mostrado boas alternativas, apresentando produtividade média acima de 14 ton/ha. "Em razão dos poucos estudos com estas cultivares na região, estamos aprimorando as técnicas de manejo com o passar dos ciclos, de forma a melhorar cada vez mais a qualidade da uva, sem perder de vista a produtividade".

Em Jundiaí, os maiores números de cachos por planta foram encontrados nas cultivares IAC 21-14 ‘Madalena’; IAC 138-22 ‘Máximo’ e ‘Bordô’. As maiores produtividades foram encontradas nas cultivares IAC 21-14 ‘Madalena’ e IAC 138-22 ‘Máximo’, com valores médios de, respectivamente, 13,9 e 13,1 ton/ha. Os maiores teores de sólidos solúveis foram obtidos nas cultivares ‘BRS Lorena’ e IAC 116-31 ‘Rainha’, com valores respectivamente de 20,6 e 19,2 °Brix (escala numérica de índice de refração).

Entre outros resultados, foi elaborado suco das cultivares Bordô, IAC 138-22 Máximo, BRS Violeta e Isabel. "Estes sucos, ainda foram avaliados sensorialmente, obtendo-se boa aceitação, principalmente os feitos a partir das uvas ‘Bordô’ e IAC 138-22 ‘Máximo’".

Em São Manuel, os melhores resultados foram obtidos com as cultivares BRS Violeta, BRS Cora e BRS Carmem, com produtividade acima de 20 ton/ha. "Quanto à qualidade química da uva, estas cultivares apresentaram grande potencial para a elaboração de sucos", diz o professor.

Até agora, os dados apresentados no estudo são resultado da pesquisa de três alunos de doutorado, que defenderão teses pelo Programa de Pós-graduação em Agronomia/Horticultura da FCA: Ana Paula Maia Paiva, Francisco José Domingues Neto e Marlon Jocimar Rodrigues da Silva, nos trabalhos realizados respectivamente em São Manuel, Jundiaí e Votuporanga.

O projeto tem financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Além da FCA, são parceiros da pesquisa o Centro de Frutas e o Centro de Seringueira e Sistemas Agroflorestais, do Instituto Agronômico (IAC) e a Estação Experimental de Viticultura Tropical, da Embrapa, em Jales.

Cresce venda de suco no Brasil - Em um levantamento do Instituto Brasileiro de Frutas, no último ano, houve crescimento na venda de sucos de uva integral, ajudando, assim, o setor. De 2014 para 2015, a venda de vinhos de mesa aumentou apenas 2%, enquanto que o de suco integral cresceu 31% no mesmo período. Em 2014, enquanto a economia retraída do país puxou a comercialização de vinhos para baixo, com queda média de 4,1%, o mercado do suco de uva seguiu em alta de 13,5%.

Ainda, de acordo com o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), a média de consumo anual per capita do brasileiro para sucos e néctares é de 5,5 litros, enquanto que na Alemanha, a média é de 37,5 litros.

Produção brasileira - O Brasil é o 19º produtor mundial de uva, com produção em 2015 de 1.497.302 toneladas em uma área de 78.011 ha. Os principais Estados produtores são: Rio Grande do Sul, Pernambuco, São Paulo, Bahia, Santa Catarina e Paraná, Santa Catarina e Bahia, respondendo, respectivamente 58,5%; 15,9%; 9,5%; 5,2%; 4,6% ;e 4,6% da produção nacional.

Em 2012, a produção de uvas destinadas ao processamento (vinhos, sucos e derivados) foi de aproximadamente 830 milhões de quilos, o que representa 57% da produção nacional.

O Estado do Rio Grande do Sul se destaca na produção e comercialização de vinhos e sucos de uva e derivados, sendo responsável por 90% da produção nacional. Em 2013, o Brasil exportou o equivalente a 4.212 toneladas de suco de uva, principalmente para o Japão, para onde foram destinados 3.535 toneladas do produto. No entanto, o Brasil ainda importa suco dessa fruta, sendo que em 2013 o total importado foi de 1.064 toneladas.

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