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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

DESPAUTÉRIO


GAUDÊNCIO TORQUATO


Quais as perspectivas que se apresentam ao país nesse momento em que se respira crise por todos os lados? Há sinais para todos os gostos. Uns enxergam o país pegando fogo com multidões nas ruas clamando por mudanças: de sistema de governo, de política, de protagonistas. Outros não são tão catastróficos, detectando já no primeiro semestre de 2017 ligeira recuperação da economia e resgate da confiança de investidores. E há os incrédulos, aqueles que desfiam o mantra: “quanto mais muda mais fica a mesma coisa”.
No meio da algaravia que se forma, entre prestigitadores da palavra e senhoras de turbantes que lêem cartas e rodam bolas de cristal, figuras comuns em programas televisivos de fim de ano, emerge uma abordagem que merece reflexão Por seu teor inusitado: “O Brasil precisa sair das mãos dos políticos”. O autor dessa façanha, que soa mais como despautério do que tese acadêmica, é Roberto Justus, o garboso publicitário, mais conhecido pela performance no programa de televisão O Aprendiz, o mesmo que deu fama a Donald Trump, cujo alourado topete ocupará os espaços midiáticos nos próximos anos, eis que o bilionário comandará a maior democracia do mundo.
Para ser preciso (e justo) com o “Trump” de nossas bandas, que também carrega portentoso topete, devemos entender a frase dada em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo como boutade, uma tirada de efeito para chamar a atenção, algo muito comum do dandismo (o prazer de espantar) na política. E a razão é tão óbvia por se tratar de uma equação que não fecha. A ideia de livrar o país da esfera dos políticos é a mesma coisa que desnaturar a política, descaracterizar a substância que a define – missão a serviço da polis -, conforme ensinaram Platão e Aristóteles, os pilares clássicos que sustentam o edifício da política.
As virtudes da temperança, da coragem e da sabedoria, na concepção platônica, são essenciais para a formação do Estado incorruptível, e inerentes aos escolhidos para fazer o Bem à coletividade. Já na visão aristotélica, o homem é, por natureza, um “animal político”, devendo, nessa condição, se estabelecer em função do Estado. Os dois filósofos distinguiam nas virtudes do Homem uma forma de engrandecer o Estado. O despropósito da recomendação do publicitário que ensaia os primeiros passos na política – com vistas ao pleito de 2018, conforme ele próprio confessa – equivale a dizer: não se faz política com políticos ou, na mesma linha do paradoxo, o Estado não é coisa para políticos. Um disparate.
Demos outro sentido ao desastroso conceito do simpático publicitário: retiremos os políticos corruptos da esfera do Estado, limpemos a política de oportunistas, proxenetas, medíocres e trânsfugas da moral. Sob essa linha de raciocínio, pode-se, até, concordar com ele. Afinal, como parafraseia José Ingenieros, em seu livro O Homem Medíocre, “cem políticos torpes, juntos, não valem um estadista genial... e políticos sem ideal marcam o zero absoluto nos termômetros da história”. Mas o combate às mazelas que assolam a política, principalmente dentro de nossa cultura patrimonialista, não pode ser simplesmente trocado pela extinção da classe política.

 Nesse caso, a quem o ex-apresentador entregaria as rédeas do Estado, seja na área da governança seja no âmbito da representação política? Lembremos que os nossos representantes provêm de profissões diversas. São engenheiros, advogados, empresários, médicos, dentistas, agricultores, comerciantes, religiosos, metalúrgicos etc. Ao ingressarem no campo político-partidário, ganham o epíteto de políticos, sem, contudo, eliminarem das identidades a profissão original. Nesse ponto, convém dizer que política é missão, não profissão. Teria esse sentido a reprimenda do empresário Roberto Justus? Se for assim, não há razão para contrariá-la.
Outro aspecto a considerar é que os profissionais de todas as áreas, ao adentrarem o terreno político, hão de se inteirar e se debruçar sobre todas as temáticas de interesse da comunidade nacional. Mesmo considerando a tendência de expansão de bancadas corporativas – ruralistas, religiosos, advogados, médicos - , na corrente de especialização que se espraia pela sociedade, os representantes nas casas congressuais se obrigam a defender as demandas do Todo e não apenas de uma de suas partes. Enfim, por qualquer ângulo que se queira examinar, a tese de retirar o Brasil das mãos de políticos é coisa tão extravagante que chega a parecer piada mal contada.

  Donald Trump ganhou o pleito nos EUA sem ser político? Ora, no momento em que decidiu se candidatar, teve de ser endossado por um partido político, ganhar prévias e discorrer sobre temas de interesse da Nação. Não era, até então, político, mas decidiu sê-lo. E irá conviver com política em todos os momentos de seu governo. João Dória se elegeu prefeito de São Paulo martelando a ideia de não ser político e sob o refrão da boa gestão?  Previsível. A comunidade dá as costas à velha política, com suas promessas mirabolantes, negócios escusos, representantes que aparecem perante o eleitor apenas no período eleitoral, roubalheira, corrupção etc. Perfis imunes, diferentes, sem cargas de denúncias sobre os ombros, entram bem no figurino da atualidade. Ainda mais quando simbolizam ideários de grupos insatisfeitos, populações empobrecidas, núcleos conservadores (como foi o caso de Trump nos EUA) ou eleitores revoltados com a desorganização da cidade e indignação contra um partido identificado com o status quo (caso de Doria).
Conforme-se, sr. Justus, o Brasil não se afastará dos políticos. Mas as perspectivas apontam para a abertura de um ciclo mais racional na forma de praticar a política, com maior transparência e controles mais duros na administração pública. E, atenção, com menos firulas publicitárias, essas que engabelam o eleitorado, tentando inverter os territórios do bem e do mal e histórias de bandidos que se fazem de mocinhos e vice-versa.  

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