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sábado, 26 de novembro de 2016

Ilusões

Reginaldo Villazón

A desigualdade social faz existir ricos e pobres por todo o planeta, identificados por classes sociais. Há nações, regiões e cidades que revelam profundos contrastes sociais. Mas é comum que riqueza e pobreza se estabeleçam lado a lado, tal como em conjuntos residenciais de alto padrão vizinhos de favelas precárias. Ricos e pobres se deparam nas empresas, nos centros comerciais e outras áreas públicas das cidades. A desigualdade pode ser abismal, mas os desiguais se encontram e se reconhecem.

Há várias maneiras práticas de explicar a desigualdade social. Vejamos algumas. Desde os tempos antigos, as sociedades se organizam em classes sociais fundamentadas em conceitos ideológicos, étnicos e religiosos. O colonialismo, que instituiu povos dominadores e povos dominados, causou desigualdades que perduram até hoje. A desigualdade existe (e vai existir sempre) porque as pessoas são desiguais. Não existem recursos suficientes para gerar progresso em favor de todas as pessoas.

Politicamente, os discursos se concentram na deficiência das ações governamentais de distribuição de renda e igualdade de oportunidades. Isto, sim, é altamente preocupante. No Brasil, a diminuta parcela de 1% da população embolsa 25% (um quarto) de toda a renda nacional produzida. É uma lástima. No mundo, segundo estudo do banco europeu Credit Suisse, a partir de 2015 a diminuta parcela de 1% da população possui 50% (metade) de toda a riqueza do planeta. É uma tragédia. Estes dados nos permitem avaliar como são escassas as oportunidades de ascensão social dos pobres.

As condições de vida dos pobres costumam ser lamentadas, com razão. Em países, como o Brasil, eles são cidadãos livres com plenos direitos políticos. Vivem, trabalham e pagam impostos. Oficialmente, o regime democrático e o estado de direito lhes garante igualdade em relação aos demais cidadãos. Porém, sendo pobres, eles vivem à margem dos serviços públicos essenciais e do desenvolvimento. O que somente bons observadores enxergam é que este arranjo social também prejudica os ricos.

A sociedade e suas instituições orientam os jovens, desde cedo, que eles devem estudar matérias escolares, adquirir conhecimentos e treinar habilidades para competirem com êxito no mercado de trabalho. Ganhar dinheiro, formar patrimônio, consumir produtos de boa qualidade, manter status de sucesso e ter amigos ilustres afastam os perigos da pobreza. Praticar caridade aos pobres é suficiente para compensar os deslizes. Mas o tempo mostra, não raro com dureza, que isto é viver uma vida medíocre.

Buda e Francisco de Assis abandonaram a riqueza e buscaram a pobreza para fugir das ilusões e encontrar um sentido para a vida. Ao longo do tempo, suas histórias se repetem com outros personagens, sempre de modo fascinante. O brasileiro Eduardo Marinho, nascido numa família de classe média alta, fez a mesma coisa pelos mesmos motivos. Descoberto por jornalistas, agora seus vídeos na Internet/Youtube somam milhões de acessos. Ele expressa com palavras vivas o que muitos sentem diante da vida.

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