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sábado, 10 de setembro de 2016

Teatro político, grito dos excluídos e eleições

Dom Reginaldo Andrietta, Bispo Diocesano de Jales

O Brasil festejou nesta semana sua independência, que, para muitos de nosso povo, ainda é fictícia e extremamente desejada. O "Grito do Ipiranga", dado por Dom Pedro I, foi na realidade a transferência de poderes. Tudo ficou em família. Para os pobres nada mudou. A escravidão continuou existindo; depois, mudou de forma. Hoje, a exploração continua de maneira dissimulada. Aquele "Grito" foi, evidentemente, uma cena teatral.

O verdadeiro "Grito" de então, contido no povo, se manifesta hoje no "Grito dos Excluídos", uma manifestação de gente trabalhadora que ocorre todo dia 7 de setembro, de norte a sul do país, desde 1995. O "Grito dos Excluídos" surgiu em resposta aos desafios tratados na 2ª. Semana Social Brasileira, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, no ano de 1994, motivado pela Campanha da Fraternidade daquele ano, cujo tema foi "Fraternidade e os Excluídos".

O lema daquela Campanha, "Eras tu, Senhor?", retrata a ética da solidariedade de Jesus, contida no Evangelho de Mateus, capítulo 25: "eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e me visitaram". Compaixão e solidariedade são critérios fundamentais para se entrar no Reino de Deus.

Por isso, o "Grito dos Excluídos" é um clamor dos trabalhadores e trabalhadoras que vivem e trabalham em condições precárias, dirigido a Deus, confiante de que a compaixão divina possa se traduzir em compaixão e solidariedade humana. Nas palavras de nosso saudoso Dom Luciano Mendes de Almeida, o "Grito dos Excluídos "é o clamor de um povo que toma consciência de seus direitos e anseia por ver respeitada sua dignidade e decência".

Defensores de uma economia sem coração, muitas lideranças políticas de nossa pátria se conflitam na advocacia indecente de interesses mesquinhos, aliados a interesses apátridas. Certamente, há grandes interesses econômicos escondidos atrás de suas decisões políticas. O povo, no entanto, é tratado como expectador nesse teatro político que poderia ser chamado de circo se não ofendesse aos trabalhadores circenses, pois estes pelo menos comunicam alegria.

Muitos atores políticos de nosso país, porém, nos fazem sofrer e chorar, sobretudo ao pensarmos que adentraram no teatro político respaldados pelo próprio voto do povo. Pensemos bem a esse respeito, pois estamos em um ano eleitoral. Devemos ser conscientes de que nosso voto pode gerar consequências trágicas, exigindo-nos extrema responsabilidade.

Devemos respeitar e valorizar quem se apresenta às eleições. Mas, atenção! Não podemos escolher qualquer um, de qualquer jeito. Necessitamos conhecer bem os históricos de vida e os programas dos candidatos e candidatas, procurando identificar se já estão ou não engajados em lutas pelo que dizem que realizarão, e com quem estão vinculados, sobretudo financeiramente.

Reconheçamos a importância de debatermos esse assunto de forma muito respeitosa em todos os ambientes, especialmente em nossas comunidades, afinal o próprio Cristo nos responsabiliza pela vida em comum, mostrando que devemos estar a serviço de seu Reino e sua justiça. Tanto mais nos implicamos de forma ativa e responsável em favor do seu Reino, mais ele se manifesta presente.

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