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sábado, 13 de agosto de 2016

Orgulho olímpico

José Renato Nalini, Secretário estadual de Educação

Tempos de Olimpíada poderiam inspirar os brasileiros a procurar outros pódios. Que tal a Olimpíada do zelo pela coisa pública, patrimônio de todos e custeado com o dinheiro do povo? Começaria com a limpeza das ruas, dos parques, das praças, de tudo aquilo que hoje é objeto de negligência ou até mesmo de maus tratos. A Olimpíada de uma recuperação dos espaços deteriorados, que eliminasse a irracional produção de resíduos, evidência de uma completa ausência de educação cívica. Não se consegue dar conta do lixo produzido em todos os lugares. Do descaso com que se arremessa à rua todo e qualquer detrito e testemunho de nossa irracionalidade.

O abandono do espaço coletivo agride, gera o mal-estar que a todos acomete, pois o ser humano tende a encontrar equilíbrio nos ambientes harmônicos, limpos e condignos com a espécie que se vangloria de ser a única racional dentre os seres vivos. Depois uma Olimpíada cuja urgência é manifesta: a polidez. Onde foi parar a civilidade? Onde os bons modos? Onde a cordialidade, a boa educação de berço, a empatia, a receptividade? Embrutecemo-nos porque a sujeira nos agride ou sujamos todos os lugares porque nos embrutecemos? Já fomos melhores. São Paulo foi uma cidade civilizada e orgulhosa de suas paisagens. Possuía parques e jardins que eram cenários de cartões postais. Hoje, só é possível fotografar à distância ou mediante uso de artifícios para disfarçar a feiura, a sujeira, o monturo, o descuido.

É muito triste exercitar a imaginação e tentar prever qual a impressão de alguém que nos visita. Viajante que integra uma civilização compatível com o atual estágio do desenvolvimento humano, o que pensará de nós ao observar o que se fez desta capital. A crueldade com que se trata a paisagem depõe contra todos. Não é possível conviver com tantos atestados de desleixo, de desprezo em relação à aquilo que se construiu com padrões de beleza, da verdadeira perversidade que sequer consegue se indignar com a sordidez e o depauperamento de nossos espaços. Essa a Olimpíada mais importante. A retomada do orgulho de sermos civilizados e não figurantes de um cenário Blade Runner.
 

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