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sábado, 2 de julho de 2016

Solidariedade à luta da juventude rural

Dom Reginaldo Andrietta, Bispo Diocesano de Jales

A 17ª Romaria da Terra e das Águas do Estado de São Paulo, promovida pela Comissão Pastoral da Terra da Igreja Católica, será realizada em Altair - SP, no próximo dia 24 de julho. Sua realização, às vésperas da Jornada Mundial da Juventude, é um motivo a mais para denunciar situações de sofrimento, apresentar reivindicações e reforçar a luta, especialmente, da juventude rural.

O Estado de São Paulo, por ser bastante industrializado e urbanizado, esconde sua realidade rural, especialmente a situação dos trabalhadores jovens. Apesar disso, a juventude rural possui importância e demanda políticas públicas que ajudem a superar seus desafios.

De acordo com o censo do IBGE de 2010, a população rural brasileira perdeu dois milhões de pessoas entre 2000 e 2010, que representavam na época, 15,6% da população do país. O Estado de São Paulo que, no ano de 2010 registrou 41.262.199 de habitantes, teve o maior êxodo rural dos últimos anos no Brasil, reduzindo-se a 1.676.948 pessoas na área rural.

Trata-se de um êxodo, sobretudo de jovens que buscam oportunidades que não encontram no campo, tais como estudo, qualificação profissional e rentabilidade. A alta competitividade do mercado inviabiliza suas atividades agropecuárias, sobretudo de cunho familiar.

Os trabalhadores rurais que, tradicionalmente, viviam dessas atividades, dependendo de seus filhos jovens, têm vendido ou arrendado suas terras para grandes empresas do agronegócio, favorecendo ainda mais a concentração dos meios de produção agropecuários. Por um lado, o campo se moderniza, por outro se esvazia de empreendedores jovens. Restam os boias-frias que trabalham sobretudo nas monoculturas, especialmente nos canaviais que não param de crescer.

Do ano 2000 a 2008, a área de cultivo de cana-de-açúcar no Estado, quase dobrou; passou de 2,8 para 4,8 milhões de hectares. Nele, se usa, acentuadamente, agrotóxicos de alto risco e em muitos lugares ainda se praticam queimadas que destroem a biodiversidade. Sabe-se da sua acelerada degradação ambiental e contaminação da água, inclusive do subsolo. Pouco se sabe, porém, sobre as condições de vida dos seus trabalhadores rurais, especialmente jovens.

No Brasil, o setor do açúcar e do álcool emprega mais de 3,5 milhões de pessoas. No Estado de São Paulo, quase 200 mil pessoas trabalham na colheita manual e sazonal da cana-de-açúcar, grande parte jovens vindos de regiões mais pobres do país, especialmente do norte e nordeste. Eles abandonam a escola, com baixa escolaridade e deixam seus familiares para poderem trabalhar especialmente neste Estado, enviando-lhes quando podem, minguados recursos.

Muitos deles saem de regiões rurais onde a taxa de analfabetismo é alta. Alojam-se nas periferias de cidades pequenas e médias, em condições precárias. Trabalham em condições perigosas, expostos à alta radiação solar, chuvas e animais peçonhentos; aspiram fuligem, poeira e agrotóxicos; sofrem continuamente acidentes com equipamentos de trabalho e transportes impróprios; fazem esforços físicos estafantes que, em muitos casos, provocam mortes; são induzidos a consumirem drogas; alimentam-se mal; adoecem com frequência; e recebem poucos cuidados médicos. Muitos são submetidos a condições de semiescravidão.

Essa 17ª. Romaria da Terra e das Águas do Estado de São Paulo, será, portanto, oportuna para que, especialmente a juventude rural mostre uma vez mais o seu rosto de sofrimento e de luta. Estejamos presentes! Manifestemos-lhe nossa solidariedade!

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