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segunda-feira, 11 de julho de 2016

O panelaço que vale a pena

Dom Reginaldo Andrietta, Bispo Diocesano de Jales

 
"O atual sistema econômico produz várias formas de exclusão social. As famílias sofrem de modo particular com os problemas relativos ao trabalho. Para os jovens as possibilidades são poucas e a oferta de trabalho é muito seletiva e precária. Os dias de trabalho são longos e frequentemente sobrecarregados por muitas horas gastas para o deslocamento. Isto não ajuda os familiares a reencontrar-se entre si e com os filhos, de maneira a poder alimentar diariamente as suas relações".

Estas palavras do Papa Francisco em sua Exortação Apostólica "A alegria do Amor", nos fazem pensar sobre os desafios da família com relação ao trabalho, sobretudo neste tempo de grave crise econômica. O Papa João Paulo II afirmou em sua Encíclica "O Trabalho Humano" que "o trabalho constitui o fundamento sobre o qual se edifica a vida familiar" e enfatizou que "o trabalho humano é uma chave, provavelmente a chave essencial, de toda a questão social".

A primeira vez que Israel aparece como povo é sob a perspectiva do trabalho. O livro do Êxodo diz que o Faraó observava "que o povo dos filhos de Israel, por sua grande quantidade, tornou-se um perigo. Ele via que era preciso tomar medidas para impedir o seu crescimento. Foram então impostos a Israel, chefes para tornar a vida dura pelos trabalhos forçados" (Ex 1,9-11).

Deus se revela a Moisés nesse contexto dizendo: "Eu vi a miséria do meu povo no Egito, conheço as suas aflições, por isso desci para libertá-lo e levá-lo para uma terra boa e espaçosa" (Ex 3,7-8). Aparece aqui um trabalho opressor, um povo oprimido, um Deus libertador.

Os profetas denunciam as injustiças cometidas contra o Povo de Deus, referindo-se às condições econômicas e ao trabalho. Amós denuncia a distorção da justiça: "vendem o inocente por dinheiro e o pobre por um par de sandálias" (Am 8,6). Isaías se levanta contra os que "ajuntam casa sobre casa e campo sobre campo, a ponto de se tornarem os únicos donos do país" (Is 5,8).

Nesta mesma linha se manifestam outros profetas, até que o próprio Filho de Deus entra em cena. O evangelista Marcos refere-se a Jesus como "carpinteiro" (Mc 6,3), ou seja, trabalhador manual. O hino de Paulo aos Filipenses diz que aquele que estava em condição de Deus tomou a condição de escravo (Fl 2,6-7). Em Jesus, Deus assume a realidade concreta de trabalhador nessa condição.

Por meio de Cristo, o trabalho escravo ganhou pleno direito à liberdade. Conforme diz Paulo aos Gálatas, "é para a liberdade que Cristo nos libertou" (Gl 5,1). A liberdade de uma pessoa ou de um grupo social depende fundamentalmente de seu trabalho dignificante.

A obra de Jesus é o melhor exemplo de trabalho dignificante. Ela evoluiu da oficina de José para a obra que o Pai lhe confiou. Essa obra culminou no dom total de sua vida pela libertação da humanidade e está sendo continuada por todos que expandem o seu Reino, em primeiro lugar, desde a comunidade familiar e desde a realidade do trabalho.

O trabalho, realizado em condições dignas, é fonte de realização, portanto de bênçãos. Essas condições, no entanto, além de ideais a serem ainda conquistados pela maior parte da população brasileira, tendem a se tornar mais precárias e inseguras se os muitos projetos de lei, atualmente, em trâmite no Congresso Nacional, que geram perdas de direitos, forem aprovados.

Que tal, então, as famílias saírem às ruas para defenderem pelo menos sua sobrevivência? Este "panelaço", sim, vale a pena.

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