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sábado, 18 de junho de 2016

Desarticulação

Reginaldo Villazón

 
A seleção brasileira de futebol começou bem sua participação na Copa América 2016, que se disputa neste mês de junho – pela primeira vez – nos Estados Unidos. O sorteio dos jogos da primeira fase foi favorável ao Brasil, que teve de enfrentar três seleções consideradas fáceis: Equador, Haiti e Peru. O Brasil empatou (0 x 0) com o Equador, ganhou (7 x 1) do Haiti e perdeu (0 x 1) do Peru. Nossa seleção foi eliminada da competição, causou insatisfação nos torcedores e teve seu técnico demitido.

Um jornalista esportivo resumiu o desfecho da presença brasileira no certame: "Seleção brasileira desentrosada volta para casa". Com tais palavras, ele não desprestigiou a qualidade do elenco de jogadores, sabidamente elevada. Mas apontou o motivo do insucesso: fraco desempenho do conjunto. Isso faz lembrar as orquestras. Nelas, os músicos são exímios no domínio dos instrumentos e das músicas. Mas realizam horas exaustivas de treinamento em conjunto até alcançarem o requinte coletivo desejado.

Não parece, mas isto tem a ver com a Lei "Parada Segura" que várias cidades brasileiras vêm adotando. A lei determina a parada dos ônibus urbanos – após as 21 ou 22 horas, fora dos pontos de ônibus – para embarque e desembarque de mulheres, com o fim de protegê-las de assaltos e abusos. Apenas os poderes municipais – Executivo e Legislativo – são acionados para elaborar e aprovar a lei. Por este motivo, a lei tem conteúdo pobre e sofre indiferença por parte de motoristas e passageiros de ônibus.

Percebe-se que a falta de entrosamento – entre políticos e cidadãos – também gera péssimas conseqüências. Na política, esse desencontro é uma desarticulação. Em postura distinta, políticos articulados são muito mais produtivos. Historiadores afirmam que o imperador Pedro II e o presidente Getúlio Vargas eram antenados e articulados com o povo. Fizeram excelentes governos. Hoje, num mundo de conexões fartas e baratas, os políticos tentam dirigir o país através de leis, na base de canetadas.

Infelizmente, isso acontece no mundo todo. Os problemas sociais, econômicos e ambientais se avolumam. Os líderes mundiais se reúnem e fazem pose para fotos. Mas não conseguem se articular e não tomam providências articuladas com os segmentos sociais devidos. Na Europa, a ação humanitária em favor das levas de imigrantes não prospera. A França se agita com a manifestação de trabalhadores contra mudanças nas leis trabalhistas. A Inglaterra ameaça abandonar o bloco da União Européia.

Achar que a adoção de conceitos tradicionais – liberdade individual, igualdade de oportunidades, democracia, estado de direito – vão resolver os problemas das nações é puro engano. Neste mundo complexo, nada será possível sem entendimentos, sem cooperação, sem compartilhamento de responsabilidades. Políticos que se fecham ao contato com o povo não têm como cumprir suas promessas, não têm como realizar bons governos. Nunca se tornam líderes consagrados por reconhecimento público.

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