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sábado, 21 de maio de 2016

“Lavemos a jato” tudo!

Dom Reginaldo Andrietta, Bispo Diocesano de Jales

 
Como é bom fazer um retiro! É justo e necessário. O presbitério da Diocese de Jales realizou o seu nesta semana, orientado pelo Padre Anselmo Limberger, da Diocese de Santo Amaro – SP. Suas reflexões, fundadas na Sagrada Escritura, na Tradição da Igreja, na filosofia, na psicologia, na teologia e em seus 28 anos de experiência ministerial, quatro dos quais como presidente da Comissão Nacional de Presbíteros, inspiraram profundamente nossa revisão de vida e nossas orações.

Os admiráveis testemunhos de vida, partilhados em nossas celebrações por padres de várias gerações, nos confirmaram a força do Espírito de Deus atuando entre nós. Fiz um balanço de meus cem dias como Bispo de Jales. Agradeci a Deus pela amável acolhida dos agentes de pastoral da Diocese, especialmente, padres, religiosas, seminaristas e lideranças de comunidades; por seu dinamismo pastoral; e por suas obras socioeducativas.

Oramos juntos por nosso povo, conscientes de seus desafios, em especial na vida das novas gerações, retratada em um belo escrito do Padre Arnaldo Parminonde Filho, de Pontalinda, como "sombria". Ele exemplifica: Crianças que têm a TV como "babá". Adolescentes com depressão. Gravidez precoce. Violência juvenil. Consumo vertiginoso de drogas. Pais que se abdicam de seu papel educativo. Avalanche de problemas que recaem sobre as escolas, sem condições adequadas para trata-los. Esse escrito ajudou-me a orar ao estilo de Jesus: a partir da realidade.

Sensibilizou-me também no retiro um pronunciamento do Papa Francisco feito nesses dias, sobre a dificuldade de inserção da juventude no mercado de trabalho. Disse ele: "a taxa de desemprego juvenil é um escândalo que não apenas deve ser afrontado em termos econômicos senão, e, não menos urgentemente, como uma enfermidade social, no momento em que se rouba a esperança da nossa juventude, se desaproveita sua energia, sua criatividade e sua intuição".

O Papa apresenta a necessidade de "novos modelos de progresso econômico, orientados ao bem comum, à inclusão e ao desenvolvimento integral". Meditando sobre suas palavras e sobre a crise econômica que afeta, sobretudo as novas gerações, passei a pensar: Que bom saber que nossos políticos se preocupam com a crise econômica, mas estariam realmente tratando-a com seriedade? Se assim fosse, afrontariam o modelo de sociedade na sua globalidade, "lavando a jato" o que ele tem de mais corrupto: a divisão em classes sociais.

Esse tipo de corrupção relegou por séculos, indígenas e escravos à condição de "sem direitos" e força hoje, 30% da classe trabalhadora a tentar sobreviver com um salário mínimo, e outros 50% na faixa de um a três salários mínimos. Se o país está entre os "top" dez da economia mundial, sua classe trabalhadora não deveria estar em melhores condições? Nosso desafio número um neste país é, portanto, um projeto de sociedade, sem o grande fosso entre ricos e pobres; projeto em função do qual qualquer governo deve trabalhar.

Qual modelo de sociedade temos? Qual modelo devemos construir e como? Essas questões nos sugerem um "retiro coletivo" que envolva todos os setores sociais, ou seja, uma revisão ampla e profunda do nosso modelo de sociedade, sobretudo nossas estruturas econômicas e políticas. Façamos esse "retiro coletivo" onde pudermos, urgentemente. Juntos, "passemos a limpo" nossa história e o presente! "Lavemos a jato" tudo, especialmente as elites no poder. Corrijamos tudo! É justo e necessário.

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