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sábado, 28 de maio de 2016

Força tarefa no combate ao tabagismo

Patrícia é especialista em ortodontia, pós-graduada em Ortodontia Auto-ligada pela New York University (EUA) e diretora da rede Odontomazza.

Até a década de 80, cigarro era símbolo de status, com o tabagismo estimulado exacerbadamente pela mídia, informativos, patrocínios, resvalando em uma imagem de empoderamento, sedução e conquista, criando um mundo especial para aqueles que o praticassem.

O fato é que, importantes ações públicas realizadas, de lá para cá, surtiram efeito e o que era um hábito comum nas gerações dos anos 50, 60 e 70, passou a ser visto como antiquado.

Entre essas medidas estão a criação de leis, tais como: a de comercialização de produtos fumígeros, com a regulamentação quanto à forma e local de propaganda, a inserção dos alertas obrigatórios sobre os riscos impostos à saúde nas embalagens dos mesmos, com a proibição do termo light; a antifumo, que proíbe o uso do cigarro em locais fechados públicos e privados; a alteração da tributação; além das recorrentes campanhas de conscientização quanto à propensão para o surgimento dos cânceres de boca e de pulmão e todas os demais malefícios que o cigarro traz à saúde.

De todo modo, a luta contra o tabagismo não deve parar. De acordo com os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), de 2015, cerca de 6 milhões de pessoas morrem em decorrência do hábito e, de acordo com o órgão, os prognósticos não são animadores. Estima-se que o número de vítimas atinja a marca dos 8 milhões, por ano, até 2030.

O fato alarmante é que, mesmo com as mudanças de comportamento da sociedade, a instalação do hábito de fumar começa aos 15 anos de idade e os problemas decorrentes da prática podem ser colhidos até 30 anos depois. Muito diferente do que a maioria das pessoas pensa, o cigarro vicia muito mais rapidamente do que a cocaína. São necessários de sete a 14 dias de consumo para a pessoa já se tornar dependente, segundo pesquisa realizada pelo Hospital do Câncer de São Paulo. Além disso, para largar o vício é infinitamente mais difícil, uma vez que as pesquisas confirmam que 80% dos fumantes querem parar, mas somente 3% das pessoas que tentam largar o vício, de fato, conseguem e, somente, após a quinta tentativa.

Não é de hoje que o assunto é de extrema preocupação mundial. No Brasil, especificamente, a situação é ainda mais grave, principalmente ao que tange à odontologia. Além de toda a carência no acesso aos serviços básicos da área, a população que adere ao tabagismo acaba potencializando inúmeros problemas, como o excesso de tártaro que leva à doença periodontal (inflamação que acomete os tecidos de suporte e sustentação dos dentes) e à perda dos dentes; e à xerostomia, que é a diminuição do fluxo salivar, aumentando a possibilidade de lesão de cárie. Isso sem falar nas questões estéticas e de paladar, na qual os componentes do cigarro, como a nicotina, influenciam na superfície dos dentes, causando uma pigmentação escura não só neles, mas também nas mucosas e na gengiva; e quanto á alteração do paladar devido às toxinas presentes no tabaco que atrofiam as papilas gustativas.

Os profissionais da área odontológica, portanto, exercem papel preponderante na disseminação da informação quanto aos riscos que o fumo traz para a saúde. Estimular o autoexame de câncer bucal, orientar sobre feridas, manchas, placas e edemas que insistem em permanecer após o período de 15 dias são algumas das muitas abordagens realizadas dentro dos consultórios.

De todo modo, todos na sociedade devem incutir e melhorar continuamente seus papeis. O legislador e os pesquisadores devem continuar atentos à problemática e aos novos hábitos de consumo, tal qual o uso do cigarro eletrônico ainda incipiente e que requer ampla investigação e estudos, uma vez que passa a ideia de ser menos prejudicial face ao cigarro convencional; o Executivo, de fiscalizar todas as leis já em vigor e, inclusive, inibir a entrada de mercadorias piratas que, invariavelmente, acabam contendo insumos de procedência infinitamente piores; os pais, de orientar os filhos na fase da pré-adolescente quanto aos impactos na qualidade de vida e, obviamente, aos que fumam, que percebam os malefícios e incorporem novos hábitos para servirem de exemplo a toda a família; e os profissionais da área da saúde e da educação que permaneçam em campanha ativa contra este que, na minha opinião, é o verdadeiro mau do século.


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