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sábado, 30 de abril de 2016

O campo da educação

*José Renato Nalini

A educação é um projeto destinado a todos. Nada mais inclusiva do que a política estatal da educação. Todos, sem exceção, a ela têm direito. O êxodo rural registrado há várias décadas fez com que a educação na zona rural fosse negligenciada. Mas São Paulo cuida de resgatar essa dívida histórica em relação às populações rurais.

Criou-se um Grupo de Trabalho sobre a Educação no Campo, com o intuito de diagnosticar a situação das escolas rurais e indicar soluções para a melhoria do atendimento, com garantia de acesso à educação básica de qualidade.

Aparentemente simples, a tarefa atribuída ao Grupo de Trabalho partiu da própria conceituação de populações do campo, a abranger um amplo espectro de pessoas. As populações campesinas, os povos da floresta, das águas e as populações itinerantes. Todos os que extraem sua condição material de existência a partir do trabalho no meio rural integram esse grande rol: trabalhadores rurais, agricultores familiares, assentados e acampados de reforma agrária, quilombolas, indígenas, extrativistas, pescadores artesanais, ribeirinhos, caiçaras, caboclos, povos de terreiros, ciganos e outros.

A educação rural, por sua vez, cresceu de importância. O campo tem suas especificidades e a tecnologia avançou bastante, reclamando atenção mais detida. Ela pode hoje ser definida como categoria de análise de processos de educação dos trabalhadores e demais populações do campo, a servir de substrato para a formulação de práticas educativas e políticas de educação.

O cenário reclama protagonismo efetivo, pois a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD, realizada pelo IBGE em 2010, demonstrou que o analfabetismo nas áreas rurais é três vezes maior do que o encontrado na área urbana: 23,3% por 7,6%, respectivamente. A escolaridade média na zona rural é de 4,5 anos, enquanto que no meio urbano, na faixa etária de 15 anos ou mais, é de 7,8 anos. Por isso a educação na zona rural é uma questão complexa e desafiadora.

Além da insuficiência de escolas destinadas à população do campo, é preciso intensificar o debate pedagógico em relação a uma educação que traduza as relações sociais concretas, a realidade complexa da vida rural e a valorização dos conhecimentos socialmente construídos pelos camponeses. Ninguém nega que a vida rural é mais atraente, em termos de qualidade, do que a vida urbana. Há de se desmistificar essa ficção de que viver na cidade é melhor. Ao contrário, a educação no campo deveria enfatizar que o convívio com a natureza, tão perdido por uma civilização que se esqueceu da indissolúvel intimidade entre o homem e todas as demais espécies de vida, é um ideal que pode ser retomado. As cidades se tornaram complicadas, não se prestando à realização integral do ser humano. O Brasil ainda dispõe de vasto território e se a educação do campo for levada a sério, ela contribuirá para que tenhamos no porvir a valorização da vida campestre, em tudo superior à existência quantas vezes indigna ou miserável de quem rompeu os elos com a terra e que já está a pagar elevado preço por isso.

A ecologia é um valioso instrumento de convencimento dos mais sensíveis, para que se recupere o amor pelo campo, pela floresta, pela natureza que ainda restou à nossa insensata inclemência. *José Renato Nalini, secretário da Educação do Estado de São Paulo

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