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sábado, 30 de abril de 2016

Infortúnios

Reginaldo Villazón

O medo está na moda entre os autores de autoajuda. Segundo eles, o medo é um mal que trava o desempenho das pessoas e atrai as coisas ruins de que elas sentem medo. A solução apontada por eles é simples: abandonar o medo, deixar de ter medo, seguir sem medo rumo ao sucesso. Mas não é bem assim. O medo não se hospeda nas pessoas por acaso e isto deve ser levado em conta. Além disso, o exagero de dizer que o medo atrai as coisas ruins causa mais medo e não ajuda as pessoas refletirem no assunto.

O medo é descrito pelos estudiosos como uma emoção. Daí chamar-se um medo súbito de choque emocional. Trata-se de uma emoção instintiva, constatada pela ciência nos seres vivos – homens, animais e plantas – diante das ameaças contra a preservação física. Mas nos seres humanos o medo é uma emoção afetada por aspectos sociais mutáveis. Na idade antiga, o medo não envolvia avaliação de riscos. Na idade média, o medo foi instalado nas coletividades pelas autoridades religiosas e familiares na defesa da moral.

Na sociedade contemporânea, as famílias e religiões – até os governos – reduziram seus controles sobre o comportamento das pessoas. Há muita tolerância em relação à apresentação pessoal (roupas, penteados, adereços, tatuagens), exposição do corpo, expressões de linguagem, ligações afetivas, consumo de drogas e outros comportamentos. O cenário atual – mudanças sociais, inovações tecnológicas, instabilidade econômica – gera insegurança, incertezas, reações de violência e muitos infortúnios pessoais.

O medo faz parte dos infortúnios pessoais, presentes na sociedade contemporânea. O stress, a depressão e os distúrbios psicossomáticos são alguns outros. O medo é responsável por providências defensivas, como os alarmes nos carros, as grades nas casas, os muros nos condomínios, as câmaras de vigilância nas empresas. As crises de ansiedade, bipolaridade e pânico são fatos corriqueiros. Elas atingem um grau de intensidade tal que obriga as pessoas a se tratarem com drogas poderosas.

Sem perceber, as pessoas tentam manter a lucidez no prazer imediato do consumo. O telefone celular atualizado permite várias funções. Mas virou doença. Na visão de alguns estudiosos, o aumento da prática dos esportes radicais e o êxtase pelos esportes de contato físico revelam que o risco e a violência agora são produtos de consumo. E que, em sentido contrário, enfraqueceram os ideais de engajamento comunitário, de luta em favor de uma sociedade mais justa, de trabalho útil na direção da prosperidade geral.

Felizmente, é possível entender que a humanidade não caminha em direção ao caos definitivo. A humanidade superou tempos difíceis, de guerras, pestes e fome em grandes proporções. Sempre se levantou renovada. Os infortúnios do mundo atual apenas refletem as tribulações de um mundo em transição, que se desconstrói para se reconstruir sob novas concepções. Como acontece nessas épocas, haverá vencidos e vencedores. Os que priorizarem lustrar suas consciências saberão o que fazer para ter sucesso.

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