A relação entre educação e o mundo em que vivemos é muito mais estreita do que imaginamos. Desse modo, as cenas cotidianas que nos assusta, como a escalada da violência em todos os sentidos é fruto, sim, do tipo de educação que estamos praticando no presente.
Essa percepção não é nova, os iluministas como Rousseau e Voltaire já esboçavam essa preocupação. Enquanto Rousseau via na universalização da educação uma saída para o futuro da Humanidade, Voltaire apontava os erros dos dogmas religiosos, incapazes de aceitar visões de mundos que destoavam da fé dominante. A falta de tolerância por parte da Igreja em relação àqueles buscavam modos diferenciados de manifestar a fé, segundo Voltaire, explicava as tragédias do mundo ocidental.
Se para o século XVIII o futuro poderia ser modificado para um mundo onde caberiam vários mundos, no século XXI, certo ceticismo abate sobre a sociedade contemporânea. A banalização da violência, a proliferação de drogas sintéticas, o renascimento de dogmatismos de cunho religioso, tanto em facções do islamismo, quanto em esferas do cristianismo, colocam em xeque a capacidade de se equacionar as dificuldades de convivência e de se chegar a um ponto de equilíbrio.
Assim sendo, podemos, novamente, pensar nos ideais iluministas no que tange a educação e a tolerância, como pilares fundamentais para edificar um mundo mais humanizado.
Primeiro cabe a educação o papel fundamental de construir uma reflexão que proporcione ao ser humano, em sua caminhada para vida adulta, entender os processos de formação da sociedade em que vive. Perceber nossa sociedade como resultado de interesses e de convenções contratualistas estabelecidas ao longo do tempo. Entretanto, esbarramos num pequeno problema: a educação não está só na escola. A pedagogia moderna já aponta que ela é um todo que se relaciona com o interno e o externo da escola.
Desse modo, cabe indagar, sobre tal processo, o que pode fazer a escola com educação rígida que a criança recebe de pais imbuídos de preceitos dogmáticos? Para piorar, muitos tentam cercear a escola de desenvolver uma reflexão ampla sobre complexidade que compõe o quadro social contemporâneo. Nesse caso, como atuar para formação de cidadãos tolerantes e equilibrados quando esse equilíbrio não existe em casa? Sem dúvida, são desafios que reforçam o papel institucional da escola, promovendo uma educação laica que ensine a igualdade de direitos.
Essa dualidade, entre o posicionamento (até certo ponto dogmático) religioso e os avanços da sociedade civil, esteve em pauta em dois amplos movimentos de rua, na cidade de São Paulo: a Marcha pra Jesus e a Parada Gay. No primeiro, o STF foi duramente atacado, no segundo, os pais foram homenageados por amar incondicionalmente seus filhos, como o caso do apresentador Marcelo Tás. A esse respeito o jornalista Gilberto Dimenstein, no portal Folha. Com, fez o seguinte comentário Os gays não querem tirar o direito dos evangélicos (nem de ninguém) de serem respeitados. Já a parada evangélica não respeita os direitos dos gays (o que, vamos reconhecer, é um direito deles). Ou seja, quer uma sociedade com menos direitos e menos diversidade. (...) Nada contra —muito pelo contrário— o direito dos evangélicos terem seu direito de se manifestarem. Mas prefiro a alegria dos gays que querem que todos sejam alegres. Inclusive os evangélicos.
Nesse fogo cruzado, entre o conservadorismo e a luta por uma sociedade igualitária é que a educação não pode se omitir. É preciso enfrentar com o respeito e a delicadeza que o assunto exige, para que nossos futuros adultos sejam capazes de atitudes mais ponderadas e equilibradas. Quem sabe assim possamos viver num mundo tolerante e menos violento. A educação deve mostrar que somos apenas homens e, enquanto tais não têm as verdades dos deuses. E talvez assim, educados para diversidade, caminharemos em um mundo mais feliz.
*Prof. Dr. Silvio Luiz Lofego, Diretor de Pós-Graduação, Pesquisa e Extensão e Coordenador do curso de História da Unijales
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