| Mauro Suetugo |
Nos últimos anos, com a melhor qualidade assistencial realizada por um bom pré-natal e suporte de UTIs-neonatais houve um importante aumento na sobrevida de prematuros cada vez menores, o foco de preocupação quanto ao prognóstico, em curto e longo prazo, voltou-se para os prematuros de muito baixo peso e, principalmente, para os menores que 1.000 g. Porém, a preocupação quanto ao prognóstico dos recém-nascidos de baixo peso, têm sido crescente nos últimos anos, devido à forte evidência de que a condição nutricional no início da vida, incluindo a fase intra-uterina, tem repercussões na saúde do adulto.
Crianças nascidas com baixo peso apresentam risco aumentado de evoluir com falha de crescimento, ou seja, com baixa estatura. Por outro lado, as que apresentam boa velocidade de crescimento, especialmente com aumento rápido do peso nos dois primeiros anos de vida, têm benefícios em curto prazo, com menores taxas de hospitalização e de mortalidade, porém têm risco aumentado de evoluir com obesidade e doenças crônicas na vida adulta, incluindo hipertensão, doença coronariana e diabetes.
Nos últimos 15 anos, surgiu a teoria da origem fetal das doenças degenerativas do adulto, baseada nos estudos de Barker, um médico inglês, que permitiram formulação da teoria mais ampla da programação nutricional, na qual se encontra o conceito de que agravos nutricionais ocorridos na vida fetal ou no período neonatal poderiam gerar conseqüências deletérias futuras. Concluíram que o baixo peso ao nascer está associado ao maior risco de desenvolvimento tardio de doença cardiovascular ou diabetes do tipo 2. A hipótese gerada propunha que alterações na nutrição e no estado endócrino do feto resultariam em adaptações de desenvolvimento que modificariam permanentemente sua estrutura, fisiologia e metabolismo. Assim, esses indivíduos estariam predispostos a doenças cardiovasculares, metabólicas e endócrinas na vida adulta.
Crianças que tiveram baixo peso ao nascer também apresentam déficit cognitivo, com baixo rendimento escolar e maior risco de distúrbios comportamentais como a hiperatividade e o déficit de atenção.
Monitorar o crescimento infantil, especialmente no primeiro ano de vida, época de maior vulnerabilidade a múltiplos agravos nutricionais, infecciosos e ambientais, é uma das ações básicas de saúde, que assume grande importância nos países em desenvolvimento, onde cerca de um terço das crianças apresentam crescimento inadequado. No Brasil, isso ocorre em torno de 10% das crianças abaixo de 5 anos, e o baixo peso ao nascer, representado basicamente pela restrição do crescimento intra-uterino, atinge cerca de 10% dos recém-nascidos. Tem chamado a atenção também um número crescente de crianças de baixo padrão social e econômico, apresentando transtornos de atenção e hiperatividade e baixo rendimento escolar. Em minha opinião, acho que mereceria um estudo mais aprofundado.
Em população de condição socioeconômica desfavorável, os determinantes biológicos de risco nutricional são mais importantes que os ambientais, o que serve para nortear as ações preventivas na área da saúde.
*Mauro Hatsuo Suetugo é médico pediatra na Santa Casa de Jales, Chefe da Disciplina de Pediatria e Puericultura e Supervisor do Internato e Residência em Pediatria da Faculdade de Medicina-Unicastelo/Fernandópolis-SP
Como doenças crônico-degenerativas podem ser evitadas em adultos
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